terça-feira, 12 de outubro de 2021

- Marinheiro, como você aprendeu a nadar dessa maneira? -


 

- Nossa, você nada muito bem, Marinheiro. Como aprendeu a nadar dessa maneira?

 - Na verdade, aprendi a balançar de acordo com as ondas do mar. Porém, o maior aprendizado da arte de nadar veio quando o navio tombou. Tive que usar todos os meus recursos para não afogar. Quando voltei a navegar novamente, sereno e tranquilo em mar calmo, mas, também, me adaptando à tempestades, ouvi, iludido pela vontade de viver, o canto da sereia. Tentei me aproximar, a sereia, porém, não se movia de sua pedra. Mas, estava cada vais mais atraído por aquela melodia, estava disposto a me atirar no mar, a desviar a rota se fosse possível e, quando me dei conta, o estava fazendo. Então, peguei a mim mesmo pela gola da camisa, "eu" diante de "si mesmo", o "grande" e o "pequeno homem" que tentava retornar, olhei-me nos olhos, e bati não com força, mas com toda moralidade possível, na face do meu "eu" e disse, "toma vergonha nessa cara!", "esqueceu de ti novamente!". Nesse momento, senti vergonha de mim mesmo. Aquilo que é pequeno, fraco e molenga, a decadência sempre retorna e, nesses momentos, é preciso chamar a si mesmo o respeito e a reverência por si, por quem se é, para não ser ingrato para consigo e para com o mar. O que importa, para o marinheiro, é o mar e seu navio.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

- Primavera -



A memória vem, constantemente, como um maremoto destruindo uma cidade. Assim como há escombros espalhados, meu corpo se encontra, com pedaços de alma e coração em cantos dispersos. Morrer é doloroso, mas, experimentar a ressurreição compensa toda a dor e nos faz se reconciliar com o passado.

Sou aquilo que sou, pois vivências vivem em mim inocentemente. Ver a própria morte a partir dessa perspectiva nos faz agradecer ao despedaçamento e dissolução de si.

O messias, após sua morte por suplício, perdoou e agradeceu aos seus carrascos. Bendito o carrasco que nos mata. Morrendo, a vida virá a florescer, a primavera mostra-se em um novo sorriso só depois que o inverno acaba.

Sou uma criança experimentando o mundo, na palma da mão.

sábado, 18 de setembro de 2021

- Despedaçamento e ressurreição -


Estranha sensação, o rosto desenhado na areia do mar tal como as palavras escritas apagam-se com o vento que sopra e tudo leva. A memória, assim, se esvai e o que sobra é apenas uma indiferença, um aprendizado e nada a menos.

Li o futuro na palma da mão, na superfície das cartas em quatro cantos do mundo e, em cada canto, cantou a mesma canção. Saber do futuro é uma maldição, pois angústia e ansiedade te devoram dia a dia. Assim, o desejo quer aquilo que não pode.

O desejo é a falta ou a saudade daquilo que nunca esteve presente.

Bruno, o despedaçado no ventre da mãe por Zeus. Bruno, o sacrificado e crucificado. Bruno, o que se afoga na água que inunda toda a cidade.

Bruno, o três vezes ressuscitado!

Vim dos mortos para caminhar uma nova vida nesta terra. Um novo espírito, em um corpo envelhecido.

Amém!

terça-feira, 14 de setembro de 2021

- Elogio à suspeita -


Hoje, a aurora finalmente se mostrou. O sol emergiu desmoronando toda a escuridão que me impedia de ver. Afastou também os fantasmas que me amedrontavam, filhos da noite. Essa mesma noite, longa noite, encarnou-se como metal pesado e, por um longo tempo, não pude mais voar.

Asas de metal! O espírito se fortalece em cada luta para erguê-las. Olhei para o horizonte, estou só. Palavras de primavera sopram meus ouvidos, mas sempre há a suspeita. A suspeita é primordial para não se afogar, levado pelo canto das sereias. A certeza é o momento certo, mas é a suspeita que nos proporciona cautela.

Uma imagem sempre vem, com vários rostos que se alternam. Pode ser ou pode não ser. Muitas possibilidades, porém, o possível apresentado dissimula o caminho mais promissor. Sei para onde devo ir, mas com cautela, pois há, ainda, um bocado de suspeita.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

- Sobre inundações -

Às vezes não consigo esconder, de mim mesmo, a saudade que sinto.

Então, tudo se inunda até transbordar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

- Ópio do povo e liberação do espírito -


Conversava com meu Demônio na hora mais solitária e silenciosa da noite quando, na janela do quarto, uma ninfa fantasmagórica apareceu. Ela não trouxe consigo uma carruagem tal como a que guiou Parmênides para encontrar-se com a verdade. Ao contrário, me trouxe a promessa de um futuro.

O Demônio, que revirava minha dor com seu tridente, me forçou a questionar o que era essa realidade. Será este futuro, esta ninfa, essa visão, reais? Voltando-se à janela, a ninfa havia dispersado no vazio do tempo juntamente com a visão do futuro, repousando em um "mais adiante". Assim, tudo o que há entre eu e o futuro é, absolutamente, nada, vazio. Não há uma estrada, mas apenas visão, fantasia, ilusão. Coisas as quais são impossíveis de serem agarradas.

Quando o tridente diabólico fisgou a vitalidade adoecida do espírito, percebi que um vapor expelido alimentava as fantasias mas, quando olhava para elas, o futuro e a ninfa, esquecia da dor e da enfermidade. Assim, realidade suspensa, dissimulada nas brumas de um paganismo oracular. No Demônio reina a sinceridade, por essa razão é tão odiado, pois ataca nossas convicções:

"O Médico não pode exercer sua função se não existir o doente, o padre não pode salvar almas sem o pecado. A cura é o niilismo para o médico. Assim, alimentar a dor e o sofrimento aprisionando o doente  naquilo que ele chama de liberdade é o poder e a razão de existir de uma tal medicina".

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

- O desespero de Epimeteu -


Acabei! O dragão foi vencido...

Me fortaleci e criei uma distância entre mim e meus adversários...

Toquei o louro, mas este foi ofertado àqueles que tinham mais fome e debilidade de espírito.

E agora, ergue-se diante de mim esta torre, ostentando um relógio cujos ponteiros repousam. Mesmo sendo nova, seu aspecto é envelhecido como se fosse tão eterna quanto o próprio tempo.

Quem segura estes ponteiros impedindo que o tempo da vida passe?

Será Xangô? Será Ogum?

Nessa paralisia angustiante do tempo, em que todas as noites são a mesma noite, o fantasma vem e fere minha alma com este punhal que me contamina com esperança, sonho de um futuro. O futuro nada é, o presente é tudo!

"Ó Epimeteu, teus passos sempre seguem um caminho circular, pois o mesmo sempre é reposto em um eterno retorno".

Movimento e repouso são o mesmo e, durante as noites, na escuridão por trás do sorriso, as entranhas da alma se reviram, tal como o castigo de Prometeu a ser devorado eternamente, em uma repetição sem fim.

"Eu lhe disse, minha tarefa é ensinar a matar a esperança... Mas, por que me rendo a ela em meus pensamentos?"

Xangô,  com sua espada, perfurou meu coração, mas não caí de joelhos. O olhei com ira,  ele, então, sorriu satisfeito.

domingo, 27 de dezembro de 2020

- Para aqueles que conhecem a natureza divina -



Toda luz sempre clareia e afasta o obscurantismo, porém, esta mesma luz, dado o seu esplendor, acaba por nos cegar. Portanto, em toda gênese de "deuses" sempre há um crepúsculo de outros mais antigos.

Façamos um pacto para não sermos ocultados e obscurecidos por essas sombras: Todos os deuses devem nascer já mortos!

sábado, 5 de dezembro de 2020

Respondendo a Delfos


 A cada vez que retorno às minhas marcas grafadas no tempo, encontro palavras antigas com um novo sentido. A identidade e a finalidade são meramente ilusórias, não sei mais o que eu quis dizer, mas compreendo o que digo para mim mesmo agora. O encontro com o passado nunca é possível, pois o presente sempre o falsifica de acordo com suas ambições.

sábado, 25 de julho de 2020

- A reflexão radical de Deus -




Deus, olhando o tempo a partir de sua eternidade, acompanhando os éons emaranhados nessa linha que já foram e que irão vir e por isso, também já o são em certa medida, toca em uma era determinada e a expande como um espaço geográfico.
Após observar os personagens já sabendo de antemão tudo o que é possível e que se seguirá, o que  torna seu olhar dispensável, pois todo ver é um olhar para o já visto, conclui: Cristo há de morrer para que o amor cristão venha a ser. O amor fraterno, como princípio máximo, já exigiu que Deus morresse, não sendo suficiente, agora solicita a morte do Cristo. Cristo há de morrer para que seu amor se prolifere sem sua máscara.
Por que Deus observa para refletir se tudo já foi observado e refletido e decidido?
Por amor e esperança.