quinta-feira, 22 de junho de 2017

- A estrada sem jogos de "bem" e "mal" -




Pena... Pluma...
Pluma pena vai e volta e vem...
Pluma pena... que diabos, não importa
pois giro como pião, qualquer parada é direção a torto e a direito.

Há muito tempo tinha, em cada uma das mãos, uma pedra e sempre as lançava para o ar quando me deparava diante de um caminho. As vezes caía, no caminho, uma escrito "bem", outras vezes caía a outra escrito "mal". Ora, lançar pedras sobre caminhos não é uma brincadeira de criança?

Pedras! Por um acaso vocês não são brinquedos nas mãos de pessoas imaturas? Ou será... pessoas imprudentes...?

Ora, sujeito falante não seja arrogante!!! Cuidado, pois para essa sabedoria há poucos aqueles que colhem.

"Bem" e "mal" se esfarelam em mãos amadurecidas... tudo o que brota, de agora em diante, é entendimento e ternura.

Pena...
Pena...
Pluma...
Em minhas mãos e de minhas mãos um assopro.
Do assopro ao ar, mil penas com a ponta suja de nakin escrevem mil estradas. Não jogo mais a brincadeira do "bem" e do "mal" na escolha, mas marco meu ponto pisando com entendimento e ternura. Um sim e 999 nãos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

- Do avesso e de ponta cabeça -



O guerreiro a ser constituído. cansado de sua última batalha contra os "mil deveres", luta longa da qual ainda não havia vencido a guerra por completo, senta-se em uma pedra rodeada de árvores de um bosque sombrio. Limpa o suor e as lágrimas de seu rosto com a manga da camisa, fita as estrelas e percebe que uma nuvem cinza e escura, da cor de seu cansaço, devora-lhes o brilho.

- É... vai chover... pelos menos minha alma será purificada de seus pecados ao ser lavada pelo choro dos deuses. Mas, meu corpo, encharcar-se-á e se tornará uma estátua de gelo.

Olhou atentamente as nuvens esperando a chuva que não vinha. Olhou para o solo sob seus pés e perdeu-se em pensamentos...
Assobio... assobio... assobio... três vezes assobio, três vezes calafrio, três vezes arrepio subindo pelas costas à nuca... três, que é metade de seis e que mais três são nove... nove esferas e no oceano de meus pensamentos sobe uma e desce e aparece o velho muito velho. Milênios navegando no oceano, milênios lendo nas entrelinhas de cada onda. Durante todos os anos de sua navegação seu bote nunca virou e nem fora engolido pelo mar.

Caminhou lentamente arrastando os pés, olhos nos olhos e o guerreiro a ser constituído viu a si mesmo sentado e com frio na pedra e falou para si mesmo:

- Você espera a chuva para se purificar, mas é o raio quem governa todas as coisas, o instante de raio que parte e reparte cada um em dois e depois, o dois, volta a ser um, porém ora do avesso, ora de ponta cabeça.

Jovem e velho, respiravam o mesmo ar e contemplavam a mesma serenidade e silêncio quando o raio partiu o chão diante deles separando-os por um abismo. Agora, o aperto de mão entre eles jamais aconteceria, tudo se dá pelo olhar e pela fala, mas, não mais pelo calor do abraço que nunca aconteceu e nunca acontecerá.

- O que você viu do raio, guerreiro a ser constituído? - Perguntou-lhe o velho muito velho.

- Intensidade, brilho e força, o instante é único e finito e deve ser aproveitado, pois acaba. Assim, viver intensamente.

- Ora ora, guerreiro a ser constituído, sua perspectiva ainda se equipara a de adolescentes que acreditam em fantasias. Você viu apenas o brilho externo do raio, eu, ao contrário, vi dentro do raio, vi criação e construção, homens construindo pirâmides e fazendo-se paredes.

O clarão passou, o guerreiro a ser constituído desapareceu, e o velho muito velho, que ainda esperava pela chuva imerso em seu oceano de pensamentos, pôs-se em direção a mais um combate de sua milenar guerra... a guerra contra os "mil deveres".


sábado, 22 de abril de 2017

- Da crença saudável -



Tudo o que faço por agora é sempre crendo que serei para o adiante. Não vivemos nunca cada instante como se fosse o último, sempre vivemos para a espera, pois acreditamos na construção diária e que tudo se soma, dia após dia. A crença de que os dias se seguem e, com eles, nós ad infinitun. Tentei agarrar aquilo que devém, mas o mundo se dissolveu e o homem, que acreditava-se salvar o mundo e deixar um legado para a humanidade quando consumasse sua vida reunindo, em um cortar do céu por um raio, todas as coisas e tijolos para o que adviria em seu "evangelho", dissolveu-se com o mundo que construiu em sua fé. Vivemos, não como se o dia de hoje fosse o último, mas sim pela fé na nossa imortalidade carnal... que é finita e, quando jovem, beira e beija mais proximamente a imortalidade.
Acredito que salvarei o mundo para algumas pessoas... mas meu esclarecimento diz que minha fé é apenas sangue para minhas pernas. Peregrinar é o que dá sentido à vida que é possibilidade de dissolução.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

- A descida aos mil infernos -



Judas, após sua grande missão na terra, de entregar o cordeiro ao sacrifício no alto da montanha para a proliferação do sumo saber, desceu aos mil infernos de sua dor. Mesmo consciente de sua tarefa, entregar o mestre aos assassinos é, talvez, a pior atitude justa a ser feita. De fato, justiça não rima com felicidade, mas sim com uma frieza na qual o gelo é somente a pele que envolve o calor do coração.
Judas, assim, com suas pernas fortalecidas, caminhou infinitas léguas pelos mil infernos. Em sua jornada viu seus cabelos caírem, viu sua barriga crescer e diminuir insondáveis vezes, sentiu seu corpo coçar de alergias de ventos que cortavam-lhe a pele. Viu sua barba embranquecer-se... encontrou, nos mil infernos, saber da dor e, do saber da dor, angústia. Tornou-se um errante acertante, pois colocar-se no suplício dos mil infernos é, para muitos olhos voadores que observam das alturas, loucura e desmedida. Mas Judas compreende a medida de todas as medidas, os maiores e mais límpidos céus posicionam-se para além do cinza das tempestades.
Dessa forma, o mais errante de todos os homens da terra defronta com os limites do inferno e, nesse limite, há um imenso portal escrito "Desespero". Judas, que já perdeu todos os enunciados que dão forma ao seu corpo, todos os dentes e todos os fios de cabelo, atravessa o portal e se vê diante do mais profundo dos abismos. Fantasmas voam ao redor de seus olhos, então os fecha e avista os mesmos fantasmas em sua mente. Os fantasmas dizem "dever", "dever", mil vezes "dever", um "dever" para cada inferno. Açoitam seu corpo e o enrolam em fitas métricas, pois cada medida do corpo é um número indivisível. Porém Judas simplesmente "ri", pois está transfigurado. Seu sorriso dissolve seu corpo em terra, água, ar e fogo. Judas é todo physis, se revela e vigora no real. As fitas métricas, que perpassam seu corpo, abraçam o vácuo e Judas, com pés elementares, caminha sobre o ar do abismo e já não tem mais nome. "Com esse riso, me tornei estranho a mim mesmo". 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

- O Caminho que vos ensino -



Vim, a todos os homens dessa terra, mostrar-lhes o caminho... o meu caminho do qual todos devem seguir. Este se resume em poucas palavras à "sustente-se sobre tuas pernas e caminhe pisando sobre seus próprios passos". Se seguir o meu caminho nunca irá me encontrar, porém não se sinta perdido e desconsolado, mas sim heroico e bem aventurado.
"Não era para você estar aqui e nem é bem vindo nesta casa, erga, para ti mesmo, tua própria habitação e carregue-a sobre teus ombros".
"Não carregue, jamais, em vossos ombros habitações alheias, pois teus telhados se romperão e seus braços não alcançarão o finito céu".
A ruptura é sempre estranha, pois junto do desejo de não-ser-mais, de devir adiante andante, a saudade e a falta daquilo que não se quer permanece. Permanece como um mundo que se dissolve e que nunca mais se verá. "Saudade do que não se quer mais é, talvez, a mais estranha das saudades".
"Reconhecer a própria altura não significa arrogância se vier acompanhada da distância virtual do quanto melhor precisa ser".
"Esse é o meu caminho, meus passos, e aqueles que os seguem jamais me encontrarão".

quinta-feira, 6 de abril de 2017

- Do nascimento dos deuses -



Das paixões nascem os deuses de som e tinta e estes, por sua vez, fecham-se em círculos eternos de ouro que a tudo domina e devasta.

quinta-feira, 30 de março de 2017

- A mais pesada das intuições: dor do mundo -



Quanto mais consciente das dores do mundo, maior se torna minha dor. Minha dor, de certa forma, aumenta a dor do mundo pois sou parte deste. Quanto mais entendimento sensível da dor do mundo, mais pesadas se tornam minhas asas de metal. Quanto mais sou capaz de golpear o ar com punhos que invocam o raio, mais vida brota da dor... e cresce... e vigora... dilacera o tempo e o passado faz-se agora lançando-se em possibilidades. Mas, tudo é memória, lembrança da dor do mundo que se desvanece quando pessoas sorriem... mesmo que por um instante... esqueço e deixo de saber por um instante... que o mundo cresce em dor e do meio da dor, força revigorante e rara.
De fato, o filósofo velho muito velho é um e o diverso, porém, de sua dor e desvanecimento nasce o Homem de Asas de Metal, nasce o guerreiro que quer dominar o raio e o trovão, e estes são minhas faces... minha auto figuração na linguagem.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

- O treinamento de Thor -



Thor treinava todos os dias incansavelmente desferindo socos e chutes no ar, porém, os efeitos e o crescimento espiritual nas artes marciais só apareceram e alargaram os enunciados vitais de seu corpo quando aprendeu que precisava golpear o ar com punhos e pés de raio. Golpear o ar com punhos e pés de raio é assumir, apoderar e agir ativamente sobre a própria vida. O raio abre o instante transmutador possível e nos damos conta de que a mudança vem como uma forte correnteza e, golpear com punhos e pés de raio, é harmonizar-se com essa correnteza. Vida se faz vida no instante de raio.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

- A parábola do grande sábio -



O grande sábio, ao chegar ao cume da montanha com a verdade nas mãos, contemplou o mundo devastado. Esse foi o único e inebriante momento de delírio e desprezo por si. Apertou a verdade entre seus dedos cerrados destruindo-a e, dos farelos luminosos que a constituíam, nasceram sementes de diálogo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

- A Obra que Salvaria o Mundo -



Houve em tempo em que éramos amigos, amigos de pouco tempo. Porém, lutávamos lado a lado como veteranos de guerra. A necessidade é algo não planejado e repentino e tivemos que nos dispor criativamente para irmos além de nossas condições e metamorfosearmos a nós mesmos, pois assim, haveria a criação da obra que salvaria o mundo e, consequentemente, nos obrigaria a recriar o destino ao qual obedecemos.

Embora a obra que salvaria o mundo seja uma obra compartilhada, as projeções e interesses que nos levam à obra são particulares. Você queria que esta obra, que salvaria o mundo, servisse ao mais puro céu, eu, porém, tinha como perspectiva à terra.

Os sete dias se passaram e a obra estava completa, pelo céu e pela terra nos degladiamos, nos ferimos e nos dispersamos, cada um com seu si mesmo despedaçado em uma caixa de ouro que pertenceram a um rei antigo.

Seu coração de nuvens, transpassado pelo punhal de minhas palavras. Você, de fato, agonizou e eu permaneci de pé, sou terra. Terra é minha progenitora e meus pés são raízes que se alimentam de sua vitalidade. Mil anos se passaram, cada ano para cada pedaço de seu coração de nuvem. Venho bater em sua porta, velho amigo e embrulhado em tecidos velhos da última guerra, guerra que tornou possível a criação da obra que salvaria o mundo, há algumas palavras de "sinto muito". De fato, essa era a última parte, o último selo para cicatrizar seu coração de nuvem. Fechou, cicatrizou e costurou com linhas rabiscadas com lápis cinza.

Nesses mil anos, recriamos a nós mesmos e criamos mundos particulares, pois este era o efeito da obra que salvaria o mundo, salvou o mundo pois tornava possível a criação de mundos particulares. Porém, após mil anos, você não compreendeu o sentido da obra. Nossos mundos não são os mesmos, não coabitamos o mesmo mundo, as perspectivas, interesses e vontades que traçam os vales, os rios e as montanhas são estranhas entre os mundos.

Portanto, para preservar a obra que salvou o mundo, destruí, com o mais frio e racional dos punhais, a ponte que ligava nossos mundos. A partir desse momento, além de diferentes nos tornamos estranhos e desconhecidos um para o outro. Nossas faces, quando se encontram nas ruas se desencontram.