domingo, 9 de maio de 2010

- Estilo Próprio -

Riem dos outros os pobres coitados que não conseguem encontrar a graça em suas próprias vidas.
Morte a tudo o que tenta ridicuralizar o estilo próprio!!!

Pensou assim o Homem de Asas de Metal enquanto compartilhava a loucura do mundo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

- O olhar da Deusa -


Jolie descia as escadas seguindo o Cavaleiro Negro, imaginava ela o que as pessoas que estavam festejando pensariam dela, embora se sentisse um pouco insegura e ainda recuperando-se de seus ferimentos, decidiu ter coragem e arriscar.
(CN) – De onde você veio? Perguntou-lhe o Cavaleiro.
Ela não ouviu o que ele havia perguntado, pois ainda se perguntava o porquê de não conseguir ouvir a canção que vinha dos olhos daquele homem, e sentiu-se curiosa e ao mesmo tempo desconfiada.
(CN) – Ei!!!!! Moça.... costuma sempre visitar mundos distantes enquanto se distrai? Perguntou ele com um sorriso meio bobo.
(J) – Que isso.... só tentava me lembrar de alguma coisa, mas nada alem do que já lhe disse antes.
(CN) – Tudo bem, mas saiba de uma coisa!!!
(J) – O que?
(CN) – Estou ansioso em saber qual foi a mais honrada divindade que nos presenteou com sua presença.
Jolie ficou envergonhada pela investida do rapaz, seu rosto ficou um pouco avermelhado, mas preferiu não dizer mais nada. Ao descerem da torre, depararam – se com a festa, havia muitas mulheres com longos vestidos dançando ao redor da fogueira.
(J) – Que tipo de festa é essa? Por que somente aquelas mulheres dançam ao redor da fogueira?
(CN) – Elas são sacerdotisas de GAIA, a grande mãe que gerou toda a vida nesse mundo. Dias atrás a suma sacerdotisa teve um presságio muito estranho e disse coisas muito confusas que nem ela mesma entendeu.
Jolie, ao ouvir essas palavras, olhou em direção àquelas mulheres e pôde perceber que a suma sacerdotisa havia notado sua presença. Embora aparentasse ter pouco mais de cinqüenta anos, a suma sacerdotisa ainda apresentava traços joviais e era tão bela quanto às outras moças que dançavam ali. Resolveu então perguntar-lhe sobre o que dizia o presságio.
(J) – Você poderia contar – me quais foram as palavras que ela pronunciou em seu presságio?
(CN) – Não me lembro muito bem, mais era mais ou menos assim:
“aquele que caminha no céu banhará com seu sangue as areias do deserto, o deserto é o ventre daquela que é mãe de si mesma, eu, gerada em meu próprio ventre, alimentada por minhas próprias sementes, meu corpo brotará de meu próprio corpo, e então devorarei aqueles que de mim se nutrem.”
Jolie ficou muito confusa, tais palavras pareciam um enigma, mas não pôde deixar de sentir o coração apertar-lhe a garganta, tinha o desejo de falar algo, mas não sabia o que dizer diante disso, parecia o prelúdio de uma tragédia. A sacerdotisa também assim compreendia, portanto, cantava com vóz de lágrima e desespero diante do fogo que a tudo consome.
Passado algum tempo, a festa chegou ao fim. Jolie subiu para o quarto no alto da torre e deitou-se, achou estranho que, num período da festa, no momento em que uma moça veio oferecer-lhe algo para comer e consequentemente havia iniciado uma conversa, pôde notar que o Cavaleiro Negro desapareceu misteriosamente do seu lado. Achou estranho, pois tal homem, simpático e prestativo, parecia não mais sair do seu lado. Mas mesmo assim, deitou-se em sua cama e dormiu.
“caminho repleto de árvores, estrada cuja qual não consigo ver seu fim, velocidade muito veloz sobre duas rodas de um objeto de metal. Jolie, flutuando na imensidão do céu, olhou para baixo e se viu sobre tal objeto, pôde perceber que segurava com força em um homem que guiava tão distinta criatura.”
Seu corpo e seu semblante manifestavam os efeitos da adrenalina que parecia experimentar verdadeiramente, quando, num instante, alguém bate na porta. Acorda assustada, mas se levanta e caminha até a porta: “- Quem está aí?” Pergunta ela temendo que fosse alguém que pudesse lhe fazer mal.
(SS) - Sou eu, a suma sacerdotisa e necessito falar contigo, você me acompanharia em uma caminhada?
(J) – Há essa hora? Está muito tarde e também muito frio.
(SS) – É importante, muito importante.
Ouvindo aos apelos daquela mulher, Jolie não pôde negar sua companhia a ela e cedeu, pôs rapidamente um vestido azul que o rapaz de alma silenciosa havia lhe deixado para que pudesse usar. A porta foi aberta e ambas desceram escada abaixo. Jolie estava inquieta, enganava-se ao pensar que não saberia do que se tratava o assunto ao qual ela desejava compartilhar, no fundo de sua alma, sabia que o presságio não trazia uma boa mensagem e, não sabia o porquê, mas, sabia ser sobre isso que ela queria conversar.
(SS) – Ohhh!!! Desculpe – me, não me apresentei, meu nome é Paula Welten, sou a suma sacerdotisa dessa cidade, sou a voz da deusa GAIA, é por mim que ela fala, é por mim que ela pronuncia suas verdades e desejos. E é por isso que lhe chamei.
(J) – Não entendo!!! O que você deseja de mim?
(PW) – Há uns dias atrás, por minha boca a deusa proferiu um presságio que não compreendemos, mas que me fez arrepiar-me. A Deusa quando vinha sempre me fazia sentir um calor muito forte, mas não em um sentido de excesso de fogo, mas sim.... excesso de vida, mas, no momento do presságio, senti frio.... muito frio, podia sentir um coração despedaçar-se e meus olhos encheram-se de lágrimas, era como se o mundo inteiro fosse privado de ter a luz do sol, uma escuridão plena, plena ausência vital, sem sopro, sem calor, sem correntezas de água correndo, mas somente poças de lágrimas. E sobre o presságio....
(J) – O presságio já me foi dito por aquele que se denominou Cavaleiro Negro, quando ouvi as palavras dele configurarem – se em frases, senti medo, muito medo, senti que uma tragédia estava por acontecer, mas não posso saber.
Caminhavam uma em companhia da outra como irmãs que a muito não se viam, Paula Welten a conduziu a um lago que ficava em meio a um círculo de árvores, e a lua, nesse momento, traçava no céu perfeita circularidade, e seu brilho lunar clareava totalmente o local, pousando soberana sua imagem nas águas.
(PW) – Nesse lugar, quando a lua se apresenta nessa forma, dizemos que a grande mãe tornou-se mais próxima e nos observa de mais perto, estes são os olhos da deusa comungando com ambos os mundos. A lua lá em cima, é o olho com a qual observa tudo o que é sagrado e misterioso, é a parte espiritual da grande mãe. A lua, refletida nas águas do lago, é o outro olho da deusa, participa de tudo o que é humano e natural, é o aspecto material da mãe, é onde todas as coisas, que espelham faces de sua grandeza, tomam formas das mais variadas. Digamos então que estamos agora diante do Olhar da Deusa, e seus olhos brilham para nós nesse momento.
(J) – Mas por que você está me dizendo todas essas coisas aqui, e por que me trouxe a esse lugar tão bonito?
(PW) – Porque você é a filha da luz, porque já te conhecia de outros lugares, já fomos irmãs, amigas, mãe e filha, e não pude deixar de lhe reconhecer quando a vi, e sei que você, com toda a sua sensibilidade, é capaz de ouvir a canção que vem do brilho de qualquer olhar, e por isso lhe peço, escute a canção que vem do brilho dos olhos da Deusa, para que assim possamos saber o que está acontecendo.

domingo, 2 de maio de 2010

- Sobre a História -


A história é constituída por dois elemento humanos: um se resume em pessoas que observam os fatos e exercem comentários a respeito das histórias, mantendo-se distante delas, formulando tudo em opiniões. O outro elemento humano configurador da história é composto por homens e mulheres que fazem suas vidas tornarem-se história, não há discursos sobre opiniões, mas apenas, não no sentido de diminuir, mas sim como algo extremamente necessário, integram-se na veracidade dos fatos aos quais experimentam, tornando assim realidade a sua vida, e com o suceder dos momentos, história.

O primeiro tipo não constrói sua própria história, pois o interesse em descrever e comentar as grandiosidades que os outros fazem e marcam toda a história as comovem. Mas comentários e comentadores não captam a essência dos acontecimentos, a sensibilidade com a qual aconteceram, mas mantêm tudo no discurso racional das teorias.

Assim a história é escrita, as vezes nos corações de outras histórias, as vezes..... em corações de espelho histórico.
Pensou assim o Homem de Asas de Metal enquanto alimentava seu espírito.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

- Pensamentos que produzem estrelas -


Era amanhecer e a Filha da Luz abrira os olhos, não se lembrara de ter entrado em uma sala fechada e ter deitado numa cama, tudo o que se lembrava era de estar nos braços de um homem que voava com asas de metal, quando de repente houve uma forte claridade, depois disso não sabia mais de nada. A curiosidade e espanto eram tantos que só percebeu a dor de suas feridas físicas depois de algum tempo, pois estava totalmente voltada para o fora de si.
A porta abriu lentamente, sentiu medo, pois desconhecera tal lugar. Ao término de sua abertura, a porta revelou um homem alto e de cabelos e olhos claros.
(HD) – finalmente você acordou. Disse o homem desconhecido.
(FL) – o que aconteceu? Perguntou ela.
(HD) – pelo que percebo ambos ansiamos pelo mesmo, saber o que houve com você.
A moça manteve-se em silêncio, e o rapaz permanecia em repousar seus olhos nela, parecia nunca ter visto mulher tão bela, ou sua cara apresentava, naturalmente, um aspecto de “boboca”. O rapaz então voltou a violar o tão sagrado silêncio.
(HD) – tudo que sei é que você estava caída no deserto quando a encontrei, então a trouxe pra cá. Você não lembra de nada?
(FL) – lembro de um homem que voava com asas de metal e de círculos que giravam, e deles escorria sangue.
(HD) – ahhh!!! Sei!!!! Pensou ele que ela estivesse delirando, pois seu estado não era dos melhores. – durma mais um pouco, precisa descansar!!! – a propósito, qual o seu nome?
(FL) meu nome...... (nesse momento veio-lhe uma lembrança muito ofuscada, como um acontecimento que se fizesse real e presente no momento em sua memória, e pôde ver, vagamente como em sonho, um homem a chamando de “Jolie”).... meu nome é ...... Jolie.
(HD) – prazer Jolie, eu sou o Cavaleiro Negro.
Após ter se apresentado, o rapaz, denominado “Cavaleiro Negro”, pôs se em direção a porta e saiu. Ela achou estranho, embora a olhasse como alguém que estivesse encantado, seus olhos não manifestavam nenhuma canção, mas apenas silêncio, perguntou-se se tal pessoa não teria alma, ou se tivesse, por que a esconderia de tal maneira?
Um dia inteiro havia se passado e ela mantinha-se na cama tentando buscar na memória o que haveria acontecido, perguntou-se também sobre o homem de asas de metal. O que teria acontecido com ele? Será que teria morrido? Nada se sabe.... apenas um sentimento de angústia e solidão na fria noite. Percebeu que, em uma das paredes do quarto, havia uma janela, decidiu então levantar-se e ir até lá, olhar para fora e ver onde estava. Pôde perceber que estava no alto de uma torre, e abaixo havia uma cidade com casas baixas e simples, viu também uma fogueira muito imensa, as chamas pareciam erguer-se ao mais alto dos céus levando com elas todos os pensamentos dela.
Pensativa, olhou mais uma vez para a fogueira que queimava os pedaços de madeira lá embaixo e avistou mulheres e homens que dançavam girando ao redor do fogo, aquilo agradara a seus olhos, e mais uma vez veio-lhe um vulto de lembrança que fez com que aquilo lhe parecesse familiar, viu-se numa noite dominada por uma imensa claridade lunar, usava um vestido longo e azul e movia-se ao redor da fogueira em meio à mulheres que dançavam nuas e homens que usavam máscaras portando chifres, em sua mão havia um punhal com o qual traçava no ar símbolos que não podia identificar. Mas pensamentos e lembranças assim vêm e vão como fumaça, mas o sentimento de saudade permanece.
Olhou então para o céu e viu uma estrela que piscava forte e surpreendeu-se a pensar uma frase em meio a todo aquele sentimento de saudade:
“tudo me parece fantasioso, mas o momento em que estive sob suas asas e você me protegia da chuva que caía naquela terra de lágrimas foi real”
Num outro lugar, que não se sabe se era distante ou perto de onde ela estava, um homem caminhava na noite, cansado, pois suas asas pesadas tornavam dura a caminhada, decidiu então sentar-se e descansar. Sentou e deitou, olhou para o céu, muitas estrelas, muitas constelações, mas havia nessa noite algo diferente em toda aquela harmonia estelar. Uma estrela piscava forte e tinha um brilho inigualável, ao observa – la, lembrou-se da moça que o chamava em seu sonho e que decidira ir procurá-la, pensou no que teria acontecido com ela, pois nada lembrava, no espaço de tempo entre ter saído do vale dos rios e ter chegado naquela cidade havia um “rombo”, um “buraco”, pois não sabia o que havia acontecido. Em meio a esses pensamentos pensou:
“Não me lembro de muita coisa, mas minha memória está marcada pelo momento em que, naquela chuva de tristeza daquele lugar, ela, com sua luz, aqueceu meu coração para que ele não esfriasse.”
No alto da torre, a mente da moça captava algo que não sabia e produzia pensamentos:
“O metal é frio, mas o bater de suas asas produzia ventos calorosos de humanidade.”
“Aquela estrela brilha, - pensou ele-, mas quero ver tal brilho nos olhos daquela moça novamente”.
“Quando saímos daquele lugar, não só meu corpo voou com o bater de suas asas, mas também os sonhos produzidos pelo meu coração”
“A noite é solitária, estou sozinho, mas meu coração ainda não voltou, acho que ela o deve tê-lo levado embora”
“Saudade, frio, sensação de solidão”
“Sinto como se me faltasse uma parte, como se necessitasse encontrar uma “outra parte””
“Eu penso, eu sinto, mas parece sonho ou mera sensação ou fantasia, ou será simples utopia”.
E pensaram os dois ao mesmo tempo: “preciso me completar em você”. E então, a estrela exerceu seu último brilho e apagou-se, os olhos do homem de asas de metal, pesados, fecharam-se. E a moça, ao virar-se para o interior do quarto, viu que o Cavaleiro Negro entrava pela porta e a convidara para ir lá embaixo onde ocorria a festa em volta da fogueira.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

- Construção e Reconstrução Perpétuas, O Destino. -


Levantei-me com a imagem da moça me chamando, talvez eu tenha que partir e deixar essas pessoas com as quais lutei ao lado. Retornei para a cidade, estava disposto a ir embora, algo me chama a sair e encontrar aquela pessoa que vi em meu sonho, não sei para onde ir, mas sei que devo partir.
Chegando a cidade dirigi-me à governanta da cidade:
(AM) – vou partir, sinto que devo ir embora e deixar a cidade.
(G) – você fala de sentimentos, seriam eles maiores que o seu juramento feito perante a mim e a esse povo?
(AM) – sei que as palavras de um homem são como suas assinaturas no vento, e ao chegar aos ouvidos, os pactos e acordos são firmados.
(G) – que está acontecendo com você? Você, guerreiro voador e criador de vendavais, jurou proteger esse povo, só sobrevivemos aos ataques por sua ajuda. Esqueceu também que fomos nós que o encontramos agonizando na floresta e cuidamos de você? Onde está a tua gratidão e compromisso?
(AM) – sei de meu juramento, mas naquele momento eu era outro diferente de mim agora, “o mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio” (Heráclito), lembra dos ensinamentos que me proporcionou? De seguir para onde o fluxo do sangue bombeado pelo meu coração me levar e me mandar seguir? Aprendi muitas coisas, sei que só posso falar do agora, pois amanhã já não serei mais o mesmo.
(G) – vá, encontre o que procura, se é que encontrará algo distinto da morte, assim torço.
Falou ela com um sorriso irônico no rosto e chamando-me de traidor pelos olhos. Então virei as costas e parti, mas estava me sentido triste, pois aquelas pessoas me adotaram e me amaram, e eu disse que as protegeriam, mas decidi ir embora, aquela que nasceu do círculo de luz chama por mim, devo encontrá – la.
A dor nos ensina, e hoje me ensinou que o homem, que reconhece o devir em seu ser, em sua entidade, não deve fazer acordos, mas re-assumir a cada dia sua posição diante do sol.

terça-feira, 27 de abril de 2010

- Confrontando Antigos Monstros -


Terminada a guerra em meio à tempestades, a cidade se reestruturava, casas e vidas eram reerguidas do pó e da tristeza que havia sobrado, migalhas, meramente migalhas de vida, mas o bastante para levantar o rosto e contemplar a nova aurora de insondáveis dias que se acrescentarão na vida dessas pessoas que sobreviveram a horrores. Almas destemidas, corajosas, caridosas e cruéis quando necessário.
As águas de um riacho que ficava próximo à cidade começaram a se agitar, vi muitas pessoas correndo e carregando em seus ombros corpos não vivos.
(AM)- O que está acontecendo? Pergunto a um camponês que expele sangue pelas mãos, olhos e pés.
(CAM)- A criatura ressurgiu, o príncipe das moscas e animais devoradores de carniça, devoradores de tudo o que está putrefado, saiu do reino obscuro da morte e diz desejar sangue quente, fluente como o fluxo do “devir”.
Disparei – me apressadamente para o riacho, espinhos e pedras pontiagudas opunham – se a mim no caminho. Os caminhos desse lugar sempre são difíceis, furam nossos pés, mas fortalecem nossas pernas. O riacho está a minha frente, e vejo erguer-se da água uma imensa criatura de duas cabeças, em uma estava escrito: “coitado de mim”, e na outra “tudo posso”. Eu havia escutado uma lenda, muito antiga, que dizia haver uma criatura de duas cabeças que conquistava e devorava os mais destemidos guerreiros, homens invencíveis, Heróis, Deuses, todos eram devorados. Mas, como que tais homens podiam ser tão facilmente devorados por tal criatura? “coitado de mim”, diz com suave voz a primeira cabeça, grandes homens são misericordiosos, tem compaixão dos mais fracos, e esse é um erro fatal numa batalha, pois a medida em que “coitado de mim” convence o guerreiro, e este, comovido, baixa a guarda, “tudo posso”, com sua boca salivante de veneno e cheia de dentes, devora aqueles que o desafiam com um só golpe.
“Tudo posso” é violência, força, agressividade e aniquilamento em um instante, “coitado de mim” é retórica, língua afiada e persuasiva, convence a todos com seu discurso de miséria.
A criatura olhou – me com os olhos de “coitado de mim”, um olhar que perfura a alma, toque de flauta que encanta e iludi o íntimo do coração, guiando para o abismo.
(AM) - conheço sua lenda criatura bicéfala, não me enganará, sei que sua outra língua, guardada na outra boca, é cheia de veneno.
(C)-Você é astuto, homem de asas de metal, mas sua astúcia não é capaz de levá-lo muito adiante do fracasso que é a sua miserável vida, você, ainda chora pelos cantos procurando socorro, não é capaz de ter vontade própria, alma decadente.
(AM) - cale-se!!!!!!!!!!!!!
(AM) - da sua boca saem palavras venenosas que penetram em meu coração e fazem minhas pernas tremerem.
(C) - O que foi? Por que se incomoda? Que ferida é essa sangrando em seu coração? Em? Você não é muito mais do que um “menino chorão”.
(AM) - você nada sabe sobre mim, destruirei você e farei com que engula a própria língua. Criatura venenosa!!!! Provará do seu veneno!!!!!
( C)- sei muito a seu respeito. Essas asas de metal? Sabe como as conseguiu? Eu que as coloquei em você.
(AM)- O quê? Esse é mais um de seus venenos?
( C)- Lembra – se da cidade onde morava? Que foi destruída por várias criaturas ansiosas por sangue humano? Pois bem, eu estava lá... lembro de um garotinho, chorando, assustado, com muito medo, iria devorá-lo de uma vez só, crianças possuem um sabor mais puro, uma carne mais macia, mas quando aquela criança, chorando aos prantos me viu, disparou a correr. Persegui devagar, gosto de ver o desespero nos olhos de minhas vítimas, assim como vejo em você agora, o menino corria e eu me divertia com o seu desespero, o seu espanto diante da morte que se aproximava, nessa hora sua vida estava sob meu poder. Pensei em diversas formas de devorar-te, mas decidi parti-lo em dois para saboreá-lo com minhas duas bocas, mas quando o peguei, uma lança veio do céu e feriu-me a língua, e um guerreiro mitológico segurou-me o pescoço enquanto você corria, mas exalei meu veneno e cuspi em suas costas, você jamais conseguiria correr como daquela forma, jamais iria caminhar com as próprias pernas, seria humilhado por todos por ter asas tão pesadas, que o tornariam inútil. Vou devorar-lhe agora, menino chorão.
Um ódio terrível se apossou do meu coração naquela hora, bati minhas asas de metal como nunca havia feito antes, voei, e do alto dos céus produzi uma tempestade de furacões e tornados que, devida tão imensa força, lançou a criatura para longe. Mas antes de ser lançada pelos ares ela disse.
- Não imaginava que aquele menino seria capaz de voar tão com “asas de metal”.
Senti – me exausto, dormi um dia e uma noite à beira do riacho velado por uma luz que me aparecia em sonho e me chamava.

domingo, 25 de abril de 2010

- Guerras, Furacões e Tempestades -


Está escuro.... uma multidão corre descendo a ladeira....
Pressinto a guerra, o cheiro da morte me é adiantado pelo tremor em minhas pernas.
Homens e mulheres, a frescura jovial aparente em suas faces, o impulso vital de sua vitalidade que não quer se esvair.
Corremos em grupo para a névoa a qual adiante dela nada se vê, nada vejo, não vejo o inimigo, mas a multidão, o povo ao qual faço parte, as pessoas as quais quero estar unido.
Um barulho semelhante a um trovão rasgando o céu nos assusta, uma criatura de metal sobrevoa nossas cabeças tentando aniquilar nossas vidas. Corro para um abrigo, mas o fogo exalado pela criatura alada e metálica faz o concreto do abrigo ruir. Esconder? Quem garante essa possibilidade? Lutar? Não o alcanço, não posso voar!
Correria, caos, destruição e medo.
Mas adiante, ao lado, há um guerreiro incansável que salta para alem das nuvens e com sua lança derruba a criatura, o mito do guerreiro de uma flecha só, é sacramente manifestado.
A criatura alada de metal espira um grito de terror, e a pele de aço de seu corpo nada significa para a lança do guerreiro, que após desferir o golpe desaparece de diante dos meus olhos que se voltam para o chão. Homens grandes e fortes, astutos e velozes se dirigem até nós com seus punhos ceifadores de vida, a mim resta apenas me afastar, salvar a própria pele.
Mas não o posso fazer, os irmãos, amigos, companheiros de batalha devem morrer juntos, lado a lado, sei que será em vão, mas o sentimento é mais importante que sobreviver dessa maneira. Ao compreender esses pensamentos que me assaltaram, ouvi uma voz vinda de mim mesmo, porém oriunda de fora de mim: se você morrer não terá morrido de verdade, você tem asas de metal, com o bater de suas asas você pode criar vendavais e tempestades.
Senti uma dor terrível, minhas costas se rasgaram e compridas asas negras de um metal escuro surgiram. Posso agora defender meus amigos, posso cortar o ar e produzir tempestades.
Corro, corro para o combate, posso ver os ceifadores de vida diante de mim, a luta justa se faz no equilíbrio, a vitória digna se faz na igualdade entre os combatentes, não nos massacres, não na covardia.
O temor diante da dificuldade é comum, a compreensão disso é outro passo, arrancar forças de si e se lançar diante da morte é um pouco mais difícil.
A coragem nunca pode morrer!!!!
Meu inimigo milenar é veloz, a lamina de sua espada alimenta-se do sangue e da alma de pessoas inocentes, atiro-me diante dele, guerreiro maléfico combatente de todas as vidas e de todas as existências. Lados opostos pela eternidade, lados opostos desde a criação dos mundos, lados opostos desde que nos tornamos homens.
Fere meu espírito com seu olhar afiado de veneno, besta de coração e alma peçonhentos, sinto – me sangrar das profundezas do mistério que sou e que permaneço. Do céu, cai a lança de guerreiro milenar e mitológico, tão leve quanto posso segurar, arma feita de sangue e aço no altar.
Guerreiro milenar ceifador de vidas, seu coração negro, perfurado, jamais bombeará veneno por meio de seus olhos, mas suas lágrimas podem lavar suas futuras atitudes e vidas.


- Ser minha própria fortaleza -


Hoje, fui atacado no local em que me sentia seguro, olhos controladores surgiram no escuro, olharam-me e me atacaram jogando veneno em meus ouvidos. O veneno escorreu, penetrou em minha mente, mas, me surpreendi, os pensamentos que compõem a orquestra do todo do íntimo estavam fortalecidos.
Fiquei contente, força oriunda do Tempo, o Tempo me tornou forte, sai do meu refúgio, pois lá me tentaram envenenar, o veneno entrou, mas seu efeito está enfraquecido.
Nessa hora senti necessidade de um refúgio, mas este estava tomado por línguas de fogo e sedentas de veneno, percebi então que agora, tenho que ser fortaleza para mim mesmo, tenho que ser o meu próprio refúgio. Sobrevivo agora em minha própria vida, os telhados do antigo refúgio construído com pupilas e lentes me impediam de crescer, mas o Tempo, o Tempo me ensinou a ser forte para abrir um buraco nesse telhado para que eu possa me expandir.
Ainda estou aprendendo a andar com minhas próprias pernas, o telhado de lentes e pupilas ofuscava-me o sol, minha vista, durante muito tempo, era turva, e meus ossos, fracos. E minhas asas, a cada dia, tornam-se mais leves.

- Quando a Filha da Luz está distante -


Não sou anjo.....
E nem tenho asas de anjo....
Não sou pássaro......
E nem tenho asas de pássaro....
Mas se tivesse, voaria para onde você está!!!!!

Minhas asas são de metal, pesadas....
... não posso voar para longe.
Mas se um dia puder voar
Voarei para o lugar onde você está

Algumas pessoas criam gaiolas e silenciam seus corações
Encerram uma voz que anseia ser escutada.
Mas a voz transcende os muros e os arames e fala pelo corpo, pelo toque, pelo abraço...
A forma com que me abraça e segura em mim, permite meu coração estar sempre livre.
Asas de metal
Leves como o vento
Suave como a alma sentimental
Um beijo que transcende o tempo
Para alem do transcendental.

- Como voar com asas de metal -




















O homem de asas de metal pergunta-se....
Para que servem as asas se para voar não servem?
As asas de plumas são leves e grandes, permitem um vôo tranqüilo e seguro, mas com asas de metal não se levanta vôo, com elas até a caminhada se torna dolorosa. O homem de asas de metal caminha pela estrada em direção oposta ao vale dos rios, quer sair daquele lugar e mostrar àquela moça que nem tudo é tão terrível. A cada passo, buracos no chão fazem suas pegadas, asas pesadas, penumbra nos olhos, visão ofuscada.
- Tempoooooooo.....
- Espaçooooooooo..........
-Me ensinem a voar com asas de metal!!!!!!!
-Minhas pernas não são fortes o suficiente para caminhar sozinho!!!!!!!
Assim grita e lamenta o homem de asas de metal. Assim lágrimas escorrem de seu coração inundando todo o corpo e vazando pelos olhos.
-Asas, servem para voar, pernas, para caminhar. Soou uma voz de entre as ruínas das antigas estruturas que insistem em permanecer.
- Isso eu sei, todos sabem, mas me ensine a voar e caminhar com asas de metal! Disse aquele de asas pesadas.
-Se não voa, se não caminha, se não consegue combater, o motivo é simples, você é o fracasso. As estruturas são fortes, nem a chuva e nem o sol que as transformaram num paraíso de trevas enevoadas as reduziram para alem de suas ruínas. Ruínas, modificações de uma construção para algo desprovido de beleza, é o que sobra quando o véu, que tornava algo demoníaco em uma obra de arte, se rasga.
- Estruturas, prédios e edifícios derrubados, mas suas plantas fortificaram raízes na alma do mundo, suas palavras me fazem desejar destruir a mim mesmo. O vento sopra, o ar se movimenta ausentando calor, o metal esfria e a dor aumenta.....
tempo tempo mago velho....
Tempo tempo mago velho..........
-As estruturas antigas apenas assustam, mas na verdade não são de concreto, mas sim de espuma, e somente aos fortes é confiado o mais pesado.... Assim diz uma voz no vento.
- Que voz é essa que rasga o vento e preenche meus ouvidos?
- Me chamo Tempo, o mago velho, o feiticeiro jovem, o espírito que há de nascer, o ser que sempre é. Asas de metal, frias.... penumbra nos olhos impedindo a visão.... vim lhe mostrar, vim lhe ensinar a ver e enxergar, compreender e depois voar com asas de metal. Tempo, mago, decorrer do milagre na vida, a transformação do que se pensa ser naquilo que se é.
Falou assim um velho misterioso de chapéu branco e de barba comprida, filho da eternidade que nunca e sempre passa, tempo, mago, magia, transformação, alquimia.
O homem de asas de metal começa a fortalecer suas pernas, inicia a sustentação de suas asas, posiciona-se diante das antigas estruturas e as desafiam, demônios saem de lá, seguram seus braços e furam seus pulmões, respirar é difícil diante daquilo que assusta.
Mas, mesmo com dificuldade em respirar diante das sombras demoníacas e desafortunadoras, aprendeu, ao ouvir e compreender as palavras da boca Temporal, a tornar leve suas asas.
Asas de metal, agora cortam o vento velozes, produzindo furacões, o vendaval é filho de suas asas pesadas agora tornadas leves, as trevas da escuridão são varridas e descristalizadas, os tijolos e o concreto são lançados á correnteza lacrimejante que tudo leva embora e devora. A penumbra de seus olhos esvaiu-se e pôde ver que por trás da face mortífera das estruturas há um sol, uma estrela, uma montanha, um caminho florido e plumas e pétalas cadentes do céu......
Assim se voa com asas de metal, assim se fortalece as pernas para se sustentar no combate....
O Tempo ensina, se personifica no mago velho para mostrar que tudo está no tempo e o tempo em tudo. Magia, alquimia...... transformação e metamorfose.....
- Os nossos limites somos nós que determinamos, e não vejo mais um horizonte ao qual não possa rasgar com o meu vôo levando você em meus braços. Falou assim para aquela que outrora havia nascido do círculo de luz.