segunda-feira, 25 de abril de 2022

- Sonho e vida no dia 25/04/2022 -


Entrei na sala de cinema, sala escura e poucas pessoas. Tudo em escala de cinza. Talvez seja pela ausência da luz, mas pouco importa. Havia ali duas pessoas e eu me sentei dando uma sequência de três à fila. Assim é o cotidiano dos mortais, tudo em fila, tudo em escala de cinza, com pouca luz e poucas cores. Como bom expectador, mantive os olhos internos fixos nessa metáfora de minha vida até que uma moça desconhecida, mas que sabia quem era se sentou ao meu lado. Uma linearidade, uma sequência lógica de enunciados, cada pessoa, uma palavra, as quatro pessoas, um texto, o texto escrito nas linhas da palma de minha mão. Tudo era em escala de cinza, mas a blusa da garota, da quarta pessoa, era verde com libélulas estampadas. Passou as mãos em meus cabelos e queria que deitasse minha cabeça em seu colo. Por mais agradável que fosse, achei tudo aquilo estranho e confuso. Porém, a moça pediu para que as outras duas pessoas se afastassem, pois ela veio para pôr uma vírgula entre eu e elas.

A vírgula nada mais é que uma interrupção, uma parada, um rompimento na linha do destino que repousa na palma da minha mão. Vírgula entre eu e essas pessoas me coloca, a sós, com a moça da blusa colorida. Agora de tarde, olho seus olhos, olho para o horizonte e você me diz que o vento que toca seu rosto é agradável e que as nuvens escuras que cobriam o céu pela manhã estavam se desfazendo. O vento tudo desfaz, tudo desmancha, tudo leva embora.

Mas tudo terminou com velas, jantar, um beijo e uma canção:

Eyes on me

quinta-feira, 31 de março de 2022

- A escuridão secreta -


Não adianta acender as luzes quando a escuridão vem de dentro e te preenche.

Quem vê o corpo andando pelo jardim, não sabe as tempestades que a alma carrega.

Não me torne o seu mundo, crie um para si e me convide para conhecer. O mundo não decidiu girar ao redor do sol, mas Atlas quem o atirou de cima de seus ombros.

Fui pregado na cruz, oferecido em sacrifício para que sua vida renascesse na dor, e essa foi uma sábia escolha.

O caminho sempre parece ser um caminho na areia, sem estrada, com rumos ilusórios, sem passado e sem futuro, pois as marcas de pés desaparecem ao terem as areias agitadas pelo vento.

domingo, 13 de março de 2022

- Acaso, o deus dos deuses -


Tudo funciona e acontece segundo a vontade do Acaso, criança manejando as cordas que prendem os entes do mundo de olhos vendados.

Não há sentido para nada, as cordas lapidam momentos e diamantes. Tudo brilha, tudo é bonito com você. E esse brilho nos faz acreditar que há um sentido ou algo maior para o que acontece. Mas a beleza das coisas é o efeito do caos que configura pequenas estrelas cujas órbitas são apenas uma queda acidental.

O Acaso fez nascer todos os deuses, o Acaso fez nascer todos os corpos...

Como também todos os romances

Como também a paixão que decide se manter

sábado, 8 de janeiro de 2022

- A identidade como fabricação -




A identidade nada mais é que uma clivagem que absorve os símbolos que estão fora. Assim, quando olho para a palma da minha mão, vejo palavras e frases escritas. Feitiço de cigano?

A história da humanidade está escrita na pele de um indivíduo qualquer.

Somos como uma garrafa sem tampo lançada ao mar...

Acreditamos em nossos contornos, acreditamos em nossa individualidade, em nossa diferença...

Mas, que diferença?

A experiência do excesso é a experiência da transgressão, mas o retorno aos símbolos que nos aprisionam é uma fatalidade, e não há como querer algo distinto disso.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

- A tragédia de Medusa -


Medusa olhava o céu estrelado a noite, contava as estrelas e desenhava constelações. Gostava de admirar tal abóboda pois lhe disseram que ali vivam os deuses, cruzando o imenso espaço escuro acima da existência dos mortais. Mas esse era um dia aguardado por ela, pois os deuses banqueteariam no salão real de sua família. O dia da descida dos deuses. Uma estrela cruzou o céu, rápido como um relâmpago e logo se apagou fazendo-a se lembrar de que, quando criança, havia se apaixonado pelo seu melhor amigo que, diante de uma mesma estrela cadente, havia prometido a ela sempre proteger e cuidar.

Os deuses desciam do céu um a um, porém, das profundezas do oceano, Posseidon emergia, onipotente, forte com olhar impetuoso. Posseidon, não só deus dos mares como também dos cavalos selvagens. Posseidon, o animalesco. Sua brutalidade atraía o olhar de muitas mortais, mas também de deusas, mas também, de sua sobrinha, Atena. Atena, com todo seu aspecto intelectual e vocabulário erudito, não conseguia atrair o interesse daquele que é pura selvageria, onda devastadora. Posseidon, do contrário, quer aquilo que lhe escapa, Medusa, jovem garota, que guarda no seu coração a memória de seu amigo, é fascinada pela imagem que possui dos deuses, mas não os conhece de fato. "Os deuses estão acima da maldade e dos impulsos carnais, os deuses são bondosos e justos", pensava ela.

Posseidon, do contrário, era pura luxúria animalesca, tudo o que quer, toma para si e com Medusa não foi diferente. A moça, indiferente às suas estratégias de sedução foi agarrada pelos braços fortes do deus que a jogou no chão frio de mármore e, diante de todos os olhares, rasgou suas roupas e a violentou ali mesmo. Houve espanto, susto, indignação, comentários sob cochichos que falavam da perversão de Medusa ao seduzir um deus. Todos assistiram ao espetáculo. Envergonhada e desapontada com os deuses e com os comentários dos humanos, medusa correu para o mesmo local onde antes fitava as estrelas e desenhava constelações.

Ouviu, de repente, passos leves se aproximando, sentiu medo, mas era apenas Atena, a deusa da sabedoria. Mantiveram-se em silêncio, uma olhando a outra. O olhar de Atena, frio devido a sua racionalidade, transmitia segurança para Medusa, que deixou-se confortar. Mas a frieza, na maioria das vezes, mascara o fogo que arde nas entranhas. O fogo do ódio e da inveja. Atena, a intelectual, fria e calculista, preterida pelo deus diante de uma mortal, aplicou sua tecnologia sobre Medusa alterando seu DNA. Seus fios de cabelo se transformaram em cobras e seu rosto desfigurado em uma imagem repugnante. A pior das maldades é aquela que é feita de forma medida, racional e calculada.

O amigo de Medusa dormia em seu quarto quando acordou com a voz desesperada daquela que jurou cuidar e proteger. Saiu subitamente para encontrá-la. Ao se deparar com a figura monstruosa, pensou tratar-se de um truque, pois a sua Medusa era bela e não uma criatura horrenda. "Olhe nos meus olhos e me reconhecerás, sou eu, sua Medusa". O rapaz, desconfiado, viu que a criatura não expressava perigo, sentiu que podia confiar, aproximou-se e a encarou. "Vê, me reconhece? Sou eu, Atena fez...". Suas palavras, então, foram cortadas diante do espanto. A retina de seu amigo escureceu em um cinza cor de tempestade. Logo, todo o olho se petrificou. O rapaz não mais se moveu, como uma presa diante de uma serpente. Seus braços, pernas e pescoço foram ficando imóveis. Tentou gritar diante da dor da paralisia, mas suas cordas vocais já haviam se transformado em pedra.

Medusa tocou o rosto daquilo que agora era uma mera estátua, sem coração, sem sangue correndo nas veias. Suas mãos eram frias, o calor de outrora se extinguiu. Medusa agora é só desespero, vontade de morrer, navio naufragado em um mar de lágrimas. "Assim são os deuses e também suas criaturas, os homens", pensou Medusa. A maldade está para além da inteligência. A inteligência e a brutalidade, pares aparentemente opostos que são apenas instrumentos do terror.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

- Marinheiro, como você aprendeu a nadar dessa maneira? -


 

- Nossa, você nada muito bem, Marinheiro. Como aprendeu a nadar dessa maneira?

 - Na verdade, aprendi a balançar de acordo com as ondas do mar. Porém, o maior aprendizado da arte de nadar veio quando o navio tombou. Tive que usar todos os meus recursos para não afogar. Quando voltei a navegar novamente, sereno e tranquilo em mar calmo, mas, também, me adaptando à tempestades, ouvi, iludido pela vontade de viver, o canto da sereia. Tentei me aproximar, a sereia, porém, não se movia de sua pedra. Mas, estava cada vais mais atraído por aquela melodia, estava disposto a me atirar no mar, a desviar a rota se fosse possível e, quando me dei conta, o estava fazendo. Então, peguei a mim mesmo pela gola da camisa, "eu" diante de "si mesmo", o "grande" e o "pequeno homem" que tentava retornar, olhei-me nos olhos, e bati não com força, mas com toda moralidade possível, na face do meu "eu" e disse, "toma vergonha nessa cara!", "esqueceu de ti novamente!". Nesse momento, senti vergonha de mim mesmo. Aquilo que é pequeno, fraco e molenga, a decadência sempre retorna e, nesses momentos, é preciso chamar a si mesmo o respeito e a reverência por si, por quem se é, para não ser ingrato para consigo e para com o mar. O que importa, para o marinheiro, é o mar e seu navio.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

- Primavera -



A memória vem, constantemente, como um maremoto destruindo uma cidade. Assim como há escombros espalhados, meu corpo se encontra, com pedaços de alma e coração em cantos dispersos. Morrer é doloroso, mas, experimentar a ressurreição compensa toda a dor e nos faz se reconciliar com o passado.

Sou aquilo que sou, pois vivências vivem em mim inocentemente. Ver a própria morte a partir dessa perspectiva nos faz agradecer ao despedaçamento e dissolução de si.

O messias, após sua morte por suplício, perdoou e agradeceu aos seus carrascos. Bendito o carrasco que nos mata. Morrendo, a vida virá a florescer, a primavera mostra-se em um novo sorriso só depois que o inverno acaba.

Sou uma criança experimentando o mundo, na palma da mão.

sábado, 18 de setembro de 2021

- Despedaçamento e ressurreição -


Estranha sensação, o rosto desenhado na areia do mar tal como as palavras escritas apagam-se com o vento que sopra e tudo leva. A memória, assim, se esvai e o que sobra é apenas uma indiferença, um aprendizado e nada a menos.

Li o futuro na palma da mão, na superfície das cartas em quatro cantos do mundo e, em cada canto, cantou a mesma canção. Saber do futuro é uma maldição, pois angústia e ansiedade te devoram dia a dia. Assim, o desejo quer aquilo que não pode.

O desejo é a falta ou a saudade daquilo que nunca esteve presente.

Bruno, o despedaçado no ventre da mãe por Zeus. Bruno, o sacrificado e crucificado. Bruno, o que se afoga na água que inunda toda a cidade.

Bruno, o três vezes ressuscitado!

Vim dos mortos para caminhar uma nova vida nesta terra. Um novo espírito, em um corpo envelhecido.

Amém!

terça-feira, 14 de setembro de 2021

- Elogio à suspeita -


Hoje, a aurora finalmente se mostrou. O sol emergiu desmoronando toda a escuridão que me impedia de ver. Afastou também os fantasmas que me amedrontavam, filhos da noite. Essa mesma noite, longa noite, encarnou-se como metal pesado e, por um longo tempo, não pude mais voar.

Asas de metal! O espírito se fortalece em cada luta para erguê-las. Olhei para o horizonte, estou só. Palavras de primavera sopram meus ouvidos, mas sempre há a suspeita. A suspeita é primordial para não se afogar, levado pelo canto das sereias. A certeza é o momento certo, mas é a suspeita que nos proporciona cautela.

Uma imagem sempre vem, com vários rostos que se alternam. Pode ser ou pode não ser. Muitas possibilidades, porém, o possível apresentado dissimula o caminho mais promissor. Sei para onde devo ir, mas com cautela, pois há, ainda, um bocado de suspeita.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

- Sobre inundações -

Às vezes não consigo esconder, de mim mesmo, a saudade que sinto.

Então, tudo se inunda até transbordar.