domingo, 29 de julho de 2018

- O cristianismo e suas hipocrisias ou Da falta de autocrítica - (Escritos morais)




O cristianismo acusa seus oprimidos e condenados a profanarem seus símbolos e templos. Mas, de certa forma, os condenados apenas tomaram as armas sob as quais sofreram durante milênios e a subverteram. Quando a serpente ingere o próprio veneno, este desse amargo dilacerando as entranhas, e acusam de criminoso o feiticeiro que reverteu o feitiço. A serpente, sob as vestes de sua máscara e toga inquisidora, pragueja em seu próprio aparelho de tortura. Ou, mais propriamente, a dor do pastor do rebanho não seria por ver as próprias palavras, carregados de bem e mal, retornando ao seu estado ativo de afirmação do saudável e do nocivo individual?
Ora, todos os templos, todos os símbolos, todos os amores e justiças já foram profanados há milênios: deus da chuva o diabo, Exu o diabo, Zeus, diabo, tudo proveniente de quando pintaram o deus pagão de vermelho. Não há motivo para choros, noviça, mas sim de autorreflexão, ninguém está a salvo da lei do retorno, é apenas a reação da ação cometida. Duas opções para a salvação da Igreja: ou reconheçam seus pecados e se purifiquem, ou que sejam submetidos ao Estado, para que sua máquina de preconceitos venenosos não se prolifere mais.

Ass. Inquisidor transfigurado

domingo, 13 de maio de 2018

- O que somos nós? -



No fim das contas, qual nossa essência?
Um composto de fios que conectam uma somatória de memórias. As lembranças do corpo são quem determinam nossos movimentos. Forças penetram a carne, cores se transformam em sangue, perfumes se transformam em palavras e sons em imagens. Não lembrar-se, a perca da memória ou a confusão nos faz sermos menos.
No oceano avistado do alto da montanha, de onde vejo o por do sol, uma mão emerge. Último suspiro, respiro. Na teia do tempo o resquício do corpo desaparece. Me jogo, mergulho, trago-me de volta... ad infinitum.

domingo, 22 de abril de 2018

- O Mundo que se despede -



Uma pequena onda de ar frio cobre meus pés assim como o sereno devaneio escorre pela noite estrelada. Um pequeno astro brilha nesta noite, porém, sua proximidade me confunde quanto a sua grandeza, palavras não verbalizadas sussurram em minha pele: O mundo está se fechando sobre si e partindo.
Este clima, este frio sopra saudade daquilo que está prestes a desmoronar com toda a sua tranquilidade. Estranha sensação de que O mundo está se fechando sobre si e partindo. Quando o último dos mundos partir que seja assim, como esta noite.
Olhares nefastos e conversas sombrias!!!! Oh! Não sei contra quem estão tramando...
Aquela estrela vermelha no céu agora brilha mais forte.

domingo, 28 de janeiro de 2018

- Parte do Manuscrito -



"Mas agora, neste último segundo de sua vida na Terra, eu vou lhe dizer o que vi: encontrei a casa limpa, a mesa posta, o campo arado, as flores sorrindo. Encontrei cada coisa em seu lugar, como devia ser. Você entendeu que as pequenas coisas são responsáveis pelas grandes mudanças.
E por causa disso vou levá-lo ao Paraíso".

Paulo Coelho: Manuscrito encontrado em Accra. 2012, p. 48.

sábado, 16 de dezembro de 2017

- Da amizade saudável -



Somos amigos, e por essa razão lhe pedi que não ultrapassasse esse abismo que rasga o chão. Existe em qualquer relação um abismo que não pode ser profanado, o abismo que demarca o espaço da minha solidão com o cuidado que me oferece. Mas, você não compreendeu, apagou o risco demarcado diante de seu pé, se compadeceu e veio me socorrer. "Eu sei do que você precisa", "siga meus conselhos e será feliz", acreditei nessas palavras e me tornei escravo.
Mil dias de luta e uma rebelião, a amizade prospera onde os amigos amam o espaço que os afasta.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

- Como ler minha obra -



Um passo de cada vez, para que seus pensamentos possam respirar profundamente. O "ar", assim, penetra os pulmões e nutre a alma.
Um passo de cada vez, para não perder o fôlego e sentar no meio da estrada e, por lá, se acomodar.
Um passo de cada vez, cada passo demorado, para que seus pés possam sentir a energia da terra penetrar em seu corpo e, assim, estremecer o espírito.
Ver o próprio espírito rachar diante da obscuridade... esse é o maior prazer do sábio.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

- Estratégia -




Nem todas as lutas valem a pena serem travadas. As vezes, compreender que o combate é impossível de ser vencido e, por essa razão, abandonado, é a melhor estratégia. As vezes, alguns adversários, invencíveis quando medimos forças e cujo esforço não produz crescimento algum é abandonado sozinho no campo de batalha, este se auto aniquila.
Fugir ou se ausentar, nesse sentido, não é sinônimo de covardia, mas a melhor estratégia para se vencer sem desperdiçar energias.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

- Minha Obra -




Hefesto martelava sem parar dia e noite e os sons de seus golpes me tiravam o sono. Cada martelada um fantasma, cada martelada um símbolo, cada martelada uma palavra que não consigo ler. Porém, a imagem forma-se lentamente no ar, a ideia parece vir de uma dimensão futura ou paralela.
 - Hefesto, o que você está criando a ferro e fogo? Posso ver mas não consigo entender. Compreendo mas não sistematizo. Qual o problema com sua obra Hefesto? Há nela rachaduras entre as partes que me impedem de ver o todo. Todo da obra? Continua sendo o todo, mas se adota uma perspectiva o sistema é de um jeito, se adoto outra o sistema é de outro. Qual o problema com sua obra Hefesto? Compreendo mas não sistematizo, se não sistematizo não falo o que é. Sua obra fala em mim e não verbalizo a ressonância da canção de sua alma.
Hefesto permaneceu em silêncio martelando. Uma martelada "IN", duas marteladas "TU", três marteladas "I", quarta martelada (...).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

- Determinação Inabalável -



O medo me visita, fala simbolismos aterrorizantes em meus ouvidos. O cinza de seus olhos me convidam a entrar em sua alma e na profundidade inefável das trevas de sua íris faço um risco colorido. Suas palavras, sinais do apocalipse, trombetas celestes, abalam minhas estruturas e todas as armaduras e proteções, chaves que fecham o corpo se esvaem no cosmos.
Tudo o que sobra é
corpo cansado,
herói ferido erguendo espada...
... sem rendição...
rendição afirmativa a cina e à vontade.
Não restam armas empunhadas, não restam escudos pesados, nem sombras, nem luz, tudo é opaco...
... mas o corpo, ferido, persiste com sua fibra e garra.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

- Eternidade -



Subi cada vez mais alto, observei cada vez mais de cima. O antes e depois só existem fora de mim e num passo descontinuo de acelerações, câmeras lenta, alcanço do clímax, revejo infinitas vezes a lagarta virando casulo. Casulo se rompe, mas quero a lagarta novamente e novamente lagarta se faz casulo. Tudo o que é é tudo que já foi e pode ser, todas as possibilidades estão dadas e condenadas na unidade. Unidade e multiplicidade se anulam pois não há sentido algum. Um milhão de séculos para mover um dedo, estou no dedo, estou no passo que caminha em círculos viciosos, dor, sofrimento, vontade e desejo. O repouso absoluto da eternidade governa o tempo. O tempo é uma roda que gira na palma da mão do Buda.
O lótus caiu e continua caindo e recaindo, o homem morreu e continua remorrendo. Mil direções no corpo a serem observadas e experimentadas mil vezes.
Deus lê a mesma página mil vezes, Deus lê o livro de trás para frende e de frente para trás, Deus articula as possibilidade de histórias paralelas. Deus não pode nada... pois é tudo...