terça-feira, 10 de janeiro de 2017

- A Obra que Salvaria o Mundo -



Houve em tempo em que éramos amigos, amigos de pouco tempo. Porém, lutávamos lado a lado como veteranos de guerra. A necessidade é algo não planejado e repentino e tivemos que nos dispor criativamente para irmos além de nossas condições e metamorfosearmos a nós mesmos, pois assim, haveria a criação da obra que salvaria o mundo e, consequentemente, nos obrigaria a recriar o destino ao qual obedecemos.

Embora a obra que salvaria o mundo seja uma obra compartilhada, as projeções e interesses que nos levam à obra são particulares. Você queria que esta obra, que salvaria o mundo, servisse ao mais puro céu, eu, porém, tinha como perspectiva à terra.

Os sete dias se passaram e a obra estava completa, pelo céu e pela terra nos degladiamos, nos ferimos e nos dispersamos, cada um com seu si mesmo despedaçado em uma caixa de ouro que pertenceram a um rei antigo.

Seu coração de nuvens, transpassado pelo punhal de minhas palavras. Você, de fato, agonizou e eu permaneci de pé, sou terra. Terra é minha progenitora e meus pés são raízes que se alimentam de sua vitalidade. Mil anos se passaram, cada ano para cada pedaço de seu coração de nuvem. Venho bater em sua porta, velho amigo e embrulhado em tecidos velhos da última guerra, guerra que tornou possível a criação da obra que salvaria o mundo, há algumas palavras de "sinto muito". De fato, essa era a última parte, o último selo para cicatrizar seu coração de nuvem. Fechou, cicatrizou e costurou com linhas rabiscadas com lápis cinza.

Nesses mil anos, recriamos a nós mesmos e criamos mundos particulares, pois este era o efeito da obra que salvaria o mundo, salvou o mundo pois tornava possível a criação de mundos particulares. Porém, após mil anos, você não compreendeu o sentido da obra. Nossos mundos não são os mesmos, não coabitamos o mesmo mundo, as perspectivas, interesses e vontades que traçam os vales, os rios e as montanhas são estranhas entre os mundos.

Portanto, para preservar a obra que salvou o mundo, destruí, com o mais frio e racional dos punhais, a ponte que ligava nossos mundos. A partir desse momento, além de diferentes nos tornamos estranhos e desconhecidos um para o outro. Nossas faces, quando se encontram nas ruas se desencontram. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

- O Fundamento da Vida -



A vida é um instante de raio constante na imensidão do céu, porém, seu fundamento, sua fundação e consequente consumação só acontece quando o tocamos e nos apossamos deste com as mãos. Assim o instante alinha-se com o acontecimento governado pelo raio e organizamos o nosso cosmos. Tocar a tempestade e sentir sua força através do raio é o princípio fundador e originário do cosmos pessoal de cada um.
Tenho aprendido a pensar mais com o coração, mas, nem por isso, minhas asas de metal se tornaram mais leves, apenas aprendi alguns truques e novos manejos para adequá-las melhor aos ventos que precedem, constituem e permanecem após as tempestades.

domingo, 6 de março de 2016

- Andrômeda -



O sofrimento não é a única fonte de conhecimento, talvez este transborde um conhecimento mais sólido e firme fazendo nossas raízes encontrarem o mais profundo do mundo. Mas, talvez, o conhecimento pela leveza seja o mais indicado, pois nos permite desfrutar um pouco mais da felicidade. Raízes nos fazem firmes, secatrizes são lembranças que não se apagam, momentos de felicidade são inesquecíveis. Todo homem necessita de um pouco de raízes e de um pouco de asas, pois a ausência do primeiro nos leva a querer ir além daquilo que podemos e a ausência do segundo nos causa imobilidade.
Há muito tempo Andrômeda permanece disposta e pendurada por correntes, uma a liga ao abismo e nela está escrito "raiva", outra ao auto da montanha e nela está escrito "projeto", outra penetra por uma porta adentrando uma casa e nela está escrito "amor", outra, enroscada em seu pescoço, se direciona aos céus, e nela está escrito "bondade".

terça-feira, 10 de novembro de 2015

- O ordinário e o extraordinário -



Ham deixou-se cair do cume de uma altíssima montanha, adentrando em meio às nuvens e expandindo suas asas, visando um voo constante. Porém, uma fria neblina ofuscou suas retinas, impedindo-o de enxergar a direção que seguia. Ao tocar o chão com seus pés e recuperar a visão, percebeu - se em uma terra desconhecida, olhou para o solo e viu que este era cinzento e constituía uma longa estrada. Às margens desse caminho, erguiam-se construções imensas que tocavam o céu e, com seus ouvidos, escutou um ruído terrível que abarcava todo o lugar arranhando, ferindo e desarmonizando seu espírito.

Essa confusa realidade começou a girar ao seu redor, adquirindo cada vez maior velocidade até transformar-se em retinas gigantes que projetavam pessoas vivendo intensamento a todo o instante. Observou por um longo tempo àquelas vidas vividas de forma intensa e extrema, nenhum segundo de vida era desperdiçada, toda a vida era aproveitada de forma extrema. Percebeu então o quão miserável era sua vida, raramente experimentara, em toda a sua existência, momentos intensos. Sua vida, pequena e pobre vida, tão pouco aproveitada, tão muito cotidiana. Tal consciência de si inundou seu peito de angústia e passou a odiar e a amaldiçoar
sua própria vida. Sua mente, antes repleta de objetivos, beirava o colapso e esfarelava-se em migalhas de pobreza.

Aproximou sua face do chão cinzento e deixou suas angustiadas lágrimas correrem. Suas lágrimas transformaram-se, ao penetrar no solo, em um vírus que corrompeu todo o sistema do real que se sustentava regando as retinas que projetavam vidas intensas. Suas lágrimas, profundo e pesado mar de existência contida, fez as retinas apodrecerem e murcharem. Seu choro, de fato, era intenso, o sofrimento e a angústia são momentos de expressão intensa e extraordinária daquilo que somos. O extraordinário são picos agudos na ordinariedade da vida, tornar o extraordinário constante é tornar a diferença na mesmice. Portanto, compreendeu que sua vida ordinária possuía um valor e, para isso, necessitava ser abraçada para, em seguida rompida elevando-se ao extraordinário, retomando, novamente, a ordinariedade da vida. O que é a vida? A vida é uma constante alternância entre extraordinário e ordinário. Porém, a ordinariedade constante e eterna, seja nela mesma ou seja na captura do extraordinário, é sobrevivência, pobreza de vivências.

Ham acordou, olhou ao lado de sua rede, lá estava a cuia da qual bebera o chá. Lá fora, contemplando o oceano, o ancião indígena o aguardava. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

- O inferno e os encantos da diferença -



Mesmo possuindo o mais perfeito paraíso sempre há a possibilidade de nos auto-expulsarmos dele, pois o desejo de escolher pelo inferno e, consequentemente, por nossa queda, é sempre latente por pura insatisfação. O bastante e o melhor nunca são suficientes diante dos encantos da diferença, mesmo que essa diferença seja a auto-aniquilação e o inferno.

sábado, 11 de abril de 2015

- O peso -

"Algumas vezes, reconheço, não consegui voar com minhas asas de metal, mas sempre procurei salvar as pessoas dos perigos.


Hoje meu coração tem batido com mais força, não sei se pela intensidade ou pelo peso, mas sei que em minhas veias têm corrido lágrimas no lugar de sangue. Tudo transborda, até que por um instante rompa os olhos e escorra pelo rosto. Essa é a mais triste canção cantada pela minha alma, mais triste e mais poderosa pois se materializa em lágrimas, palavras se tornam matéria e matéria símbolos. 
Algumas vezes, reconheço, não consegui voar com minhas asas de metal, mas sempre procurei salvar as pessoas dos perigos.

domingo, 22 de março de 2015

- O governo de Ideia -

"Você não possui as Ideias, elas que possuem você".


Desde que cheguei a esse vilarejo percebi que todos os dias, do amanhecer ao por do sol, um homem velho se dirigia para a beira do mar e permanecia por lá, sentado, o dia inteiro. Embora sempre quisesse saber o motivo dessa sua atitude, algo me imobilizava, tinha a sensação de que seu eu fosse até lá e interrompesse seu ritual estaria profanando a sacralidade de seu cotidiano.
Essa curiosidade permaneceu por dias até que não pude mais suportar a angústia e a inquietação que me impulsionava a querer ir lá e perguntar. Pois bem, aprendi que um homem deve controlar seus instintos e vontades, mas isso já vinha de algo mais profundo do que o simples e forte desejo, era uma necessidade, um apelo que partia do fundo da minha alma e eu, que trabalhava arduamente na arte de voar com asas de metal e adotara o conselho de aprender a ouvir a canção que vinha da minha alma, não pude mais suportar. A melodia entoada por minha alma me obrigava a ir até lá, se quisesse voar com asas de metal, conversar com aquele homem velho era um requisito.
Pois é, meio amedrontado diante das possibilidades que me aguardavam e das quais eu desconhecia completamente, caminhei em direção a ele.
Ao me aproximar, percebi que o velho permanecia imóvel fitando o mar, minha presença era completamente indiferente para ele. Então resolvi quebrar o silêncio.

(Ham) - O mar está bonito hoje, não?

O velho permaneceu indiferente como antes, então tentei novamente.

(Ham) - Tem uma tempestade se aproximando...

Antes que pudesse terminar a frase o velho estendeu a mão em sinal de silêncio e imediatamente me calei.

(OldMan) - Espero, todos os dias, a Ideia.

Isso soou meio estranho, não entendi nada do que o velho queria dizer, esperar a Ideia chegar observando, todos os dias, o mar??? Mil interrogações assombraram meus pensamentos nessa hora, por mais estúpido que isso parecesse o velho sabia muito bem do que falava, e isso foi o mais assombroso, pois falava com palavras obscuras envoltas em mistérios.

(Ham) - Ideia????? Mas eu tenho elas e estão todas em minha cabeça. Como esperá-las do mar?

O velho, um pouco ofendido, não pela grosseria de minhas palavras, mas pela ignorância de minha postura me respondeu.

(OldMan) - Você não possui as Ideias, elas que possuem você. Elas chegam silenciosamente imersas no turbilhão caótico e, quando você se dá conta, elas dominam seus pensamentos e cavalgam montadas neles. Nesse momento há duas opções, ou provocar uma rebelião do pensamento contra a Ideia e assassiná-la ou permitir que ela se apodere de seus pensamentos organizando-os em puro ato criativo. Acumulei muita sabedoria durante toda minha vida, porém, para me igualar aos deuses, necessito que a Ideia chegue até mim e organize todo esse conhecimento para que eu me torne criador de minha própria realidade. Observe o mar...

Apontou com o dedo indicador em direção a ele e eu, fascinando com suas palavras, obedeci.

(OldMan) - Nessa perspectiva que estamos só conseguimos enxergar a superfície do mar, não vemos o turbilhão caótico que sustenta essa superfície.

Minha atenção foi totalmente tomada e meus pensamentos, automaticamente, se curvaram diante do silêncio, apenas escutava o som do mar, e esse era o único som que alcançava meus ouvidos, toda a natureza estava em silêncio e, nesse momento, no alto mar, uma mulher emergiu e vinha caminhando sobre as águas com muita suavidade, com muita calma, o mundo ao meu redor se transformava infinitas vezes e todas as possibilidades de mundo se misturavam. De fato, algo extraordinário estava acontecendo. Ela se aproximou e se manteve face a face, despiu as poucas vestes que cobriam seu corpo e aproximou seus lábios ao meu ouvido e disse: "Meu nome é Ideia, deixe-me seduzi-lo e governar seus pensamentos e então, voará com asas de metal". Depois disso mil realidades passaram diante dos meus olhos e tudo retornou ao seu devido lugar, outras sonoridades acompanhavam o som do mar, porém, já era noite e quando olhei para o lado o homem velho tinha partido e deduzi que ele havia retornado para sua casa.   

sexta-feira, 13 de março de 2015

- Estúdio Arte Limitada -

convido a todos a visitarem a interessante página do Estúdio Arte Limitada:



https://www.facebook.com/EstudioArteIluminada?fref=photo

em agradecimento por terem citado uma frase do meu blog na página deles, algo que me deixou muito contente


https://www.facebook.com/EstudioArteIluminada/photos/a.466727056686364.120758.465490176810052/953165988042466/?type=3&theater

quinta-feira, 12 de março de 2015

- Transcendendo dimensões -

As palavras ditas pelo coração, orações mântrica que silenciam o universo, atravessam dimensões e encontram quem está a milhares de quilômetros de distância.


Séculos se passaram e ali, sentada em uma pedra na margem do imenso rio que limita o mundo, Trèsjolie observava um dentre vários círculos existenciais. Observava com os mesmos olhos de uma menina apaixonada que sempre espera, na janela, seu amor passar. Porém, ele nunca passa, mas a persistência de quem ama pode fazer milagres e mudar até o mais sólido e enferrujado curso de uma existência. As palavras ditas pelo coração, orações mântricas que silenciam o universo, atravessam dimensões e encontram quem está a milhares de quilômetros de distância.

Certo dia, Ham, caminhando pelo seu deserto, viu uma nota musical voando, abriu as mãos e fechou os olhos, e, como se conhecesse o seu destino, a nota musical pousou nas mãos daquele que se esforçava em aprender a voar com asas de metal. Sentindo a quente sonoridade na palma de sua mão, fechou-a e, imediatamente, teve o corpo revigorado e pôde continuar a caminhar pelo seu próprio deserto.

- Mar de possibilidades -

Mar, imenso mar, anseio em beber todas as possibilidades...


Mar, imenso mar, anseio em beber todas as possibilidades. É possível beber todas as possibilidades do mar, imenso mar? Talvez a melhor forma de experimentar todas as suas possibilidades de uma única vez é mergulhando com toda as forças da vontade. Mas isso também já não é uma possibilidade? E as possibilidades da terra? Eu já teria, por vezes trilhando longínquos  caminhos, experimentado todas as possibilidades da terra? Pés que andam milênios e pulmões sufocados do gole salgado de todo o mar, assim é o mundo das possibilidades. Quanto mais caminhos mais novas trilhas se constroem diante de minhas vistas. As possibilidades são infinitas, mas os pés só podem seguir por um caminho de cada vez e só podemos nadar por uma corrente marinha de cada vez. Para cada sim escolhemos cem mil nãos
.