sábado, 25 de julho de 2020

- A reflexão radical de Deus -




Deus, olhando o tempo a partir de sua eternidade, acompanhando os éons emaranhados nessa linha que já foram e que irão vir e por isso, também já o são em certa medida, toca em uma era determinada e a expande como um espaço geográfico.
Após observar os personagens já sabendo de antemão tudo o que é possível e que se seguirá, o que  torna seu olhar dispensável, pois todo ver é um olhar para o já visto, conclui: Cristo há de morrer para que o amor cristão venha a ser. O amor fraterno, como princípio máximo, já exigiu que Deus morresse, não sendo suficiente, agora solicita a morte do Cristo. Cristo há de morrer para que seu amor se prolifere sem sua máscara.
Por que Deus observa para refletir se tudo já foi observado e refletido e decidido?
Por amor e esperança.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

- Sobre rabiscos e realidades -



Empírico subiu aos céus com todo seu ódio e sua revolta, afinal de contas seus ideiais e descobertas sempre estiveram acorrentados por correntes ocas. Mas, assim como o pequeno elefante, que desde a infância aprendeu que a corda amarrada ao pequeno galho de uma pitangueira o impediria de andar independente do momento, assim Empírico se revolta pois foi feito de tolo, acreditou em miragens mantendo seu intelecto em masmorras sombrias guardado por ela... sua alma... seu órgão de culpa sempre o ameaçando com o fogo de inferno.
Mas agora é diferente, Empírico subiu aos céus com todo seu ódio e sua revolta, seu punhal. Observou enfurecido e lá, em seu trono ancestral, estava ele, o velho Deus, sentado cabisbaixo, olhar vazio. Empírico blasfemou incontáveis vezes, esperava ser varrido dos céus com a onipotência divina, mas nada aconteceu. O velho Deus permaneceu imóvel como um estátua. Empírico então o apunhalou, não pelas costas como fazem os covardes filhos de Deus, mas cara a cara, no coração. O punhal, perfurando o peito divino, rasgou-o como folha de papel e não encontrou um interior. "Será que Deus não possui coração?", perguntou-se Empírico. Mas, para sua surpresa, a imagem de Deus se partiu ao meio e dentro não havia substância alguma. Tudo oco. Tudo era apenas tinta, papel, traços e palavras... e nada mais.
Descobriu que Deus era apenas uma ilusão com a qual se enganou e nutriu ódio por toda a sua existência. Riu de sua própria tolice e, já que estava no céu, decidiu que, desde aquele momento, que "matou" o que nunca existiu, reinaria sobre o mundo.
Anos se passaram, mas não muitos, e o mundo desandou e sangrou... igualmente no reinado de seu Pai todo poderoso. Empírico, não mais nutrido de ódio mas de remorso por ter levado a humanidade ao colapso, pegou seu punhal sagrado e cravou em seu peito... transpassou como folha de papel... "Terei eu me tornado Deus?", perguntou a si mesmo Empírico não compreendendo nada. E assim, partiu-se ao meio, folhas de papel de um lado, rabiscos e tintas coloridas de outro.  Nenhum coração.

sábado, 20 de outubro de 2018

- Adão como arquétipo do homem fascista -



Grão por grão de areia, um pouco de água e sopro divino. Poderia ser um castelo na beira do mar, mas não, é um corpo de homem que se banha no sol. Contrastando com ele da escuridão da face misteriosa da lua, uma mulher se oculta no tempo da história.
 - Quantas poeiras de estrelas cadentes foram necessárias para que nossos corpos se configurassem aqui, nessa corda paralela pela qual corre a temporalidade?
De fato, belas palavras do homem primordial. Assim, a mulher primogênita revela-se retirando o véu de sombras que pairava sobre seu rosto. Como não se encantar? Perguntou-se a primogênita ao observar seu igual. Somente pelo igual há philia e somente pelo igual é que há competição honrosa que aprimora as forças.
Lilith, porém, descobriu que Adão não estava à sua altura, mas não se importava com isto. Quando há parceria e companheirismo, a disputa se torna meio para o crescimento.
Mas Adão, o ressentido, o inseguro, temendo a criatura que o ameaçava (e aqui cabe um parênteses, a ameaça externa nunca fora real, mas sim uma fantasia, um fantasma criado como artifício de seu próprio entendimento para justificar suas pulsões impotentes, assim funcionava o entendimento de Adão, auto justificando sua fraqueza, demonizando aquilo que há de força), rogou a Deus, em seu mais absoluto silêncio, que a enviasse para o inferno... E assim se fez um amém.
Adão, devido seu pecado, girou pelo Samsara por eras milenares e nada compreendeu. Hoje, como arquétipo e alma fragmentada em milhares de imbecis, inseguros, atacam aquilo que se manifesta como força, como força feminina, pois a insegurança e o medo diante das mulheres fortes ainda não se resolveu.
Até quando Adão, serás o inseguro?

domingo, 29 de julho de 2018

- O cristianismo e suas hipocrisias ou Da falta de autocrítica - (Escritos morais)




O cristianismo acusa seus oprimidos e condenados a profanarem seus símbolos e templos. Mas, de certa forma, os condenados apenas tomaram as armas sob as quais sofreram durante milênios e a subverteram. Quando a serpente ingere o próprio veneno, este desse amargo dilacerando as entranhas, e acusam de criminoso o feiticeiro que reverteu o feitiço. A serpente, sob as vestes de sua máscara e toga inquisidora, pragueja em seu próprio aparelho de tortura. Ou, mais propriamente, a dor do pastor do rebanho não seria por ver as próprias palavras, carregados de bem e mal, retornando ao seu estado ativo de afirmação do saudável e do nocivo individual?
Ora, todos os templos, todos os símbolos, todos os amores e justiças já foram profanados há milênios: deus da chuva o diabo, Exu o diabo, Zeus, diabo, tudo proveniente de quando pintaram o deus pagão de vermelho. Não há motivo para choros, noviça, mas sim de autorreflexão, ninguém está a salvo da lei do retorno, é apenas a reação da ação cometida. Duas opções para a salvação da Igreja: ou reconheçam seus pecados e se purifiquem, ou que sejam submetidos ao Estado, para que sua máquina de preconceitos venenosos não se prolifere mais.

Ass. Inquisidor transfigurado

domingo, 13 de maio de 2018

- O que somos nós? -



No fim das contas, qual nossa essência?
Um composto de fios que conectam uma somatória de memórias. As lembranças do corpo são quem determinam nossos movimentos. Forças penetram a carne, cores se transformam em sangue, perfumes se transformam em palavras e sons em imagens. Não lembrar-se, a perca da memória ou a confusão nos faz sermos menos.
No oceano avistado do alto da montanha, de onde vejo o por do sol, uma mão emerge. Último suspiro, respiro. Na teia do tempo o resquício do corpo desaparece. Me jogo, mergulho, trago-me de volta... ad infinitum.

domingo, 22 de abril de 2018

- O Mundo que se despede -



Uma pequena onda de ar frio cobre meus pés assim como o sereno devaneio escorre pela noite estrelada. Um pequeno astro brilha nesta noite, porém, sua proximidade me confunde quanto a sua grandeza, palavras não verbalizadas sussurram em minha pele: O mundo está se fechando sobre si e partindo.
Este clima, este frio sopra saudade daquilo que está prestes a desmoronar com toda a sua tranquilidade. Estranha sensação de que O mundo está se fechando sobre si e partindo. Quando o último dos mundos partir que seja assim, como esta noite.
Olhares nefastos e conversas sombrias!!!! Oh! Não sei contra quem estão tramando...
Aquela estrela vermelha no céu agora brilha mais forte.

domingo, 28 de janeiro de 2018

- Parte do Manuscrito -



"Mas agora, neste último segundo de sua vida na Terra, eu vou lhe dizer o que vi: encontrei a casa limpa, a mesa posta, o campo arado, as flores sorrindo. Encontrei cada coisa em seu lugar, como devia ser. Você entendeu que as pequenas coisas são responsáveis pelas grandes mudanças.
E por causa disso vou levá-lo ao Paraíso".

Paulo Coelho: Manuscrito encontrado em Accra. 2012, p. 48.

sábado, 16 de dezembro de 2017

- Da amizade saudável -



Somos amigos, e por essa razão lhe pedi que não ultrapassasse esse abismo que rasga o chão. Existe em qualquer relação um abismo que não pode ser profanado, o abismo que demarca o espaço da minha solidão com o cuidado que me oferece. Mas, você não compreendeu, apagou o risco demarcado diante de seu pé, se compadeceu e veio me socorrer. "Eu sei do que você precisa", "siga meus conselhos e será feliz", acreditei nessas palavras e me tornei escravo.
Mil dias de luta e uma rebelião, a amizade prospera onde os amigos amam o espaço que os afasta.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

- Como ler minha obra -



Um passo de cada vez, para que seus pensamentos possam respirar profundamente. O "ar", assim, penetra os pulmões e nutre a alma.
Um passo de cada vez, para não perder o fôlego e sentar no meio da estrada e, por lá, se acomodar.
Um passo de cada vez, cada passo demorado, para que seus pés possam sentir a energia da terra penetrar em seu corpo e, assim, estremecer o espírito.
Ver o próprio espírito rachar diante da obscuridade... esse é o maior prazer do sábio.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

- Estratégia -




Nem todas as lutas valem a pena serem travadas. As vezes, compreender que o combate é impossível de ser vencido e, por essa razão, abandonado, é a melhor estratégia. As vezes, alguns adversários, invencíveis quando medimos forças e cujo esforço não produz crescimento algum é abandonado sozinho no campo de batalha, este se auto aniquila.
Fugir ou se ausentar, nesse sentido, não é sinônimo de covardia, mas a melhor estratégia para se vencer sem desperdiçar energias.