terça-feira, 15 de novembro de 2022

- O meu mais novo mandamento -

"Esquecer, para não mais decair"


Sim, gostaria de esquecer....

te esquecer....

esquecer seus atos passados, presentes e futuros...

para, não mais, decair nesse vale...

de lágrimas... de desespero e angústia.


Não quero mais essa falta da onde não posso mais retornar

sábado, 12 de novembro de 2022

- A meta para um coração partido -


Não quero mais miragens em minha vida,

Só quero a certeza.

Basta! Não quero mais remendar o coração!

Não quero mais ter que colar os pedaços do meu espírito quebrado!

Não quero mais ter que costurar as cicatrizes de minha alma!

Não nasci para ser a segunda opção, não nasci para ser descartado e nem para ser trocado...

Muito menos traído....

Quando entregar meu coração em suas mãos, não o aperte até virar areia, são muitos pedaços para serem juntados... e estou cansado de me refazer...

domingo, 6 de novembro de 2022

- A queda do anjo cujas asas são de metal -


Às vezes o mundo se apresenta com tamanha leveza, que nos esquecemos que viver é voar com asas de metal. E esse é o maior de todos os aprendizados, pois nunca se finaliza e, pelo fato de abarcar inúmeras possibilidades de pesos distintos, faz com que o sentido ou o contorno que é dado pareça limitá-lo.

Fui um anjo enviado para te salvar, porém, eu, que via tudo claramente por manter-me nas alturas, me apaixonei tal como Eros por Psique. Não mais senti o metal de minhas asas me impelindo para os abismos. Gostei desse mundo e o colori com todas as cores disponíveis em meu pincel mágico. Você me fez querer ser criador de mundos.

Porém, algo ficou estranho, o mundo foi perdendo a cor, o metal foi ficando frio e pesado novamente. Havia certo cansaço, uma dor nas costas e, ao tentar me curar, encontrei um punhal, depois um e depois mais outro. Meu assassino agia nas sombras, mas era ele a própria sombra escondida por trás do rosto de porcelana. A sombra, nas sombras, tramava com outras, sorrateiras, trevosas. Uma delas parecia ser um igual, talvez esse fosse seu maior desejo, "ser à minha imagem e semelhança", como não é capaz de voar na mesma altura, resolveu cortar-me as asas para me rebaixar.

 - É você, meu amor, que me apunha-la pelas costas?
 - Você sabe, meu anjo e protetor, que nunca faria isso, é a loucura que te acomete.
 - Por que sangro então em meu coração?
 
Veio, em direção ao meu peito, uma lança, envenenada e esta era empunhada por quatro mãos.
A violência sexual é a maior prática de humilhação, assim, o anjo que voa com suas asas de metal permanecerá, caído, em uma cratera semelhante a um poço, até que consiga voar, novamente, com suas asas de metal...

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

- Ulisses, razão e terra natal -

Tal como Ulisses, navego pelo mundo, perdido, submetendo-o à minha racionalidade. As aventuras que forjam um herói não anulam a saudade de sua terra natal, Ítaca. Mas, é assim que o destino deve ser perseguido, pois os deuses quem o traçaram com suas linhas de tapeçaria.

De que adianta, Ulisses, vencer as bestas mitológicas, quando o demônio emerge das trevas de sua alma. Com um pequeno truque acorrentei esse demônio, mas Ítaca, a Ítaca, sempre será uma saudade, apenas um vestígio de memória, que pouco a pouco se torna um vapor onírico e que nunca irá retornar. A vida irá se acabar e Ulisses viverá seus últimos dias com sua terra natal, apenas na memória evanescente.

"Maldito o dia em que parti para a Tróia".

quinta-feira, 9 de junho de 2022

- Inquietude noturna -



O sentimento de saudade diante da percepção do fluir temporal, o sentimento de despedida diante  do tempo esvaindo ao olhar pela janela. Vida indo embora, um adeus, uma noite de primavera. O fim da trilha, do caminho, da noite que chama para dormir mas o corpo persiste na vigília, esperando chegar.

A saudade do que está presente é o prelúdio do fim.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

- Sonho e vida no dia 25/04/2022 -


Entrei na sala de cinema, sala escura e poucas pessoas. Tudo em escala de cinza. Talvez seja pela ausência da luz, mas pouco importa. Havia ali duas pessoas e eu me sentei dando uma sequência de três à fila. Assim é o cotidiano dos mortais, tudo em fila, tudo em escala de cinza, com pouca luz e poucas cores. Como bom expectador, mantive os olhos internos fixos nessa metáfora de minha vida até que uma moça desconhecida, mas que sabia quem era se sentou ao meu lado. Uma linearidade, uma sequência lógica de enunciados, cada pessoa, uma palavra, as quatro pessoas, um texto, o texto escrito nas linhas da palma de minha mão. Tudo era em escala de cinza, mas a blusa da garota, da quarta pessoa, era verde com libélulas estampadas. Passou as mãos em meus cabelos e queria que deitasse minha cabeça em seu colo. Por mais agradável que fosse, achei tudo aquilo estranho e confuso. Porém, a moça pediu para que as outras duas pessoas se afastassem, pois ela veio para pôr uma vírgula entre eu e elas.

A vírgula nada mais é que uma interrupção, uma parada, um rompimento na linha do destino que repousa na palma da minha mão. Vírgula entre eu e essas pessoas me coloca, a sós, com a moça da blusa colorida. Agora de tarde, olho seus olhos, olho para o horizonte e você me diz que o vento que toca seu rosto é agradável e que as nuvens escuras que cobriam o céu pela manhã estavam se desfazendo. O vento tudo desfaz, tudo desmancha, tudo leva embora.

Mas tudo terminou com velas, jantar, um beijo e uma canção:

Eyes on me

quinta-feira, 31 de março de 2022

- A escuridão secreta -


Não adianta acender as luzes quando a escuridão vem de dentro e te preenche.

Quem vê o corpo andando pelo jardim, não sabe as tempestades que a alma carrega.

Não me torne o seu mundo, crie um para si e me convide para conhecer. O mundo não decidiu girar ao redor do sol, mas Atlas quem o atirou de cima de seus ombros.

Fui pregado na cruz, oferecido em sacrifício para que sua vida renascesse na dor, e essa foi uma sábia escolha.

O caminho sempre parece ser um caminho na areia, sem estrada, com rumos ilusórios, sem passado e sem futuro, pois as marcas de pés desaparecem ao terem as areias agitadas pelo vento.

domingo, 13 de março de 2022

- Acaso, o deus dos deuses -


Tudo funciona e acontece segundo a vontade do Acaso, criança manejando as cordas que prendem os entes do mundo de olhos vendados.

Não há sentido para nada, as cordas lapidam momentos e diamantes. Tudo brilha, tudo é bonito com você. E esse brilho nos faz acreditar que há um sentido ou algo maior para o que acontece. Mas a beleza das coisas é o efeito do caos que configura pequenas estrelas cujas órbitas são apenas uma queda acidental.

O Acaso fez nascer todos os deuses, o Acaso fez nascer todos os corpos...

Como também todos os romances

Como também a paixão que decide se manter

sábado, 8 de janeiro de 2022

- A identidade como fabricação -




A identidade nada mais é que uma clivagem que absorve os símbolos que estão fora. Assim, quando olho para a palma da minha mão, vejo palavras e frases escritas. Feitiço de cigano?

A história da humanidade está escrita na pele de um indivíduo qualquer.

Somos como uma garrafa sem tampo lançada ao mar...

Acreditamos em nossos contornos, acreditamos em nossa individualidade, em nossa diferença...

Mas, que diferença?

A experiência do excesso é a experiência da transgressão, mas o retorno aos símbolos que nos aprisionam é uma fatalidade, e não há como querer algo distinto disso.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

- A tragédia de Medusa -


Medusa olhava o céu estrelado a noite, contava as estrelas e desenhava constelações. Gostava de admirar tal abóboda pois lhe disseram que ali vivam os deuses, cruzando o imenso espaço escuro acima da existência dos mortais. Mas esse era um dia aguardado por ela, pois os deuses banqueteariam no salão real de sua família. O dia da descida dos deuses. Uma estrela cruzou o céu, rápido como um relâmpago e logo se apagou fazendo-a se lembrar de que, quando criança, havia se apaixonado pelo seu melhor amigo que, diante de uma mesma estrela cadente, havia prometido a ela sempre proteger e cuidar.

Os deuses desciam do céu um a um, porém, das profundezas do oceano, Posseidon emergia, onipotente, forte com olhar impetuoso. Posseidon, não só deus dos mares como também dos cavalos selvagens. Posseidon, o animalesco. Sua brutalidade atraía o olhar de muitas mortais, mas também de deusas, mas também, de sua sobrinha, Atena. Atena, com todo seu aspecto intelectual e vocabulário erudito, não conseguia atrair o interesse daquele que é pura selvageria, onda devastadora. Posseidon, do contrário, quer aquilo que lhe escapa, Medusa, jovem garota, que guarda no seu coração a memória de seu amigo, é fascinada pela imagem que possui dos deuses, mas não os conhece de fato. "Os deuses estão acima da maldade e dos impulsos carnais, os deuses são bondosos e justos", pensava ela.

Posseidon, do contrário, era pura luxúria animalesca, tudo o que quer, toma para si e com Medusa não foi diferente. A moça, indiferente às suas estratégias de sedução foi agarrada pelos braços fortes do deus que a jogou no chão frio de mármore e, diante de todos os olhares, rasgou suas roupas e a violentou ali mesmo. Houve espanto, susto, indignação, comentários sob cochichos que falavam da perversão de Medusa ao seduzir um deus. Todos assistiram ao espetáculo. Envergonhada e desapontada com os deuses e com os comentários dos humanos, medusa correu para o mesmo local onde antes fitava as estrelas e desenhava constelações.

Ouviu, de repente, passos leves se aproximando, sentiu medo, mas era apenas Atena, a deusa da sabedoria. Mantiveram-se em silêncio, uma olhando a outra. O olhar de Atena, frio devido a sua racionalidade, transmitia segurança para Medusa, que deixou-se confortar. Mas a frieza, na maioria das vezes, mascara o fogo que arde nas entranhas. O fogo do ódio e da inveja. Atena, a intelectual, fria e calculista, preterida pelo deus diante de uma mortal, aplicou sua tecnologia sobre Medusa alterando seu DNA. Seus fios de cabelo se transformaram em cobras e seu rosto desfigurado em uma imagem repugnante. A pior das maldades é aquela que é feita de forma medida, racional e calculada.

O amigo de Medusa dormia em seu quarto quando acordou com a voz desesperada daquela que jurou cuidar e proteger. Saiu subitamente para encontrá-la. Ao se deparar com a figura monstruosa, pensou tratar-se de um truque, pois a sua Medusa era bela e não uma criatura horrenda. "Olhe nos meus olhos e me reconhecerás, sou eu, sua Medusa". O rapaz, desconfiado, viu que a criatura não expressava perigo, sentiu que podia confiar, aproximou-se e a encarou. "Vê, me reconhece? Sou eu, Atena fez...". Suas palavras, então, foram cortadas diante do espanto. A retina de seu amigo escureceu em um cinza cor de tempestade. Logo, todo o olho se petrificou. O rapaz não mais se moveu, como uma presa diante de uma serpente. Seus braços, pernas e pescoço foram ficando imóveis. Tentou gritar diante da dor da paralisia, mas suas cordas vocais já haviam se transformado em pedra.

Medusa tocou o rosto daquilo que agora era uma mera estátua, sem coração, sem sangue correndo nas veias. Suas mãos eram frias, o calor de outrora se extinguiu. Medusa agora é só desespero, vontade de morrer, navio naufragado em um mar de lágrimas. "Assim são os deuses e também suas criaturas, os homens", pensou Medusa. A maldade está para além da inteligência. A inteligência e a brutalidade, pares aparentemente opostos que são apenas instrumentos do terror.